O MÁRIO CASA NOVA MARTINS faz uma revista a "PLÁTANO" em Portalegre. Foi feita a apresentação do Nº4, no dia 1 de Novembro.
Só por falta de tempo, não falei ainda dela.
Uma revista cultural, com colaboradores de impressionante curriculum, que esgota a cada número que sai, linda e onde aprendi, como é costume com o Mário.
Há uns meses atrás, o Mário, convidou-me para escrever uma das minhas histórias para este número da sua revista.
Tremi perante a responsabilidade, mas a Ana Maria, como amiga que é, deu-me um empurrão e mandou-me passear, a mim e ás minhas parvoíces.
Funcionou. Escrevi.
Obrigado Ana Maria!
Nunca poderei agradecer o suficiente ao Mário, por ter acreditado em mim, por ter corrido este risco, por me ter convidado para uma revista com semelhante qualidade, por me ter dado a hipótese de ver uma história minha, escrita em letra de forma.
Eternamente agradecida, Mário. Bem Haja!
Deixo-a aqui para ver se gostam.
Três Mulheres...Uma Geração
Estávamos na paragem do autocarro que nos levaria ao liceu, onde as três andávamos desde o início, quando ela apareceu, direita, cabeça bem levantada, ar apressado, características que ainda hoje mantém, para iniciar os dois últimos anos do liceu, vinda de colégios de Freiras.
Nunca imaginaríamos, naquela altura, o vendaval de ar fresco, de irreverência, de independência, de transgressão de gargalhadas, que varreria as nossas vidas.
Foi logo no segundo dia que, quando entrou a única Professora de Moral que existia no liceu, mulher dos seus sessenta anos vestida, como era hábito, de saia escocesa encarnada, e meias de lã até aos joelhos da mesma cor, se ouviu uma gargalhada sonora, irresistível, que por ser tão proibida, pôs a turma toda a rir, quebrando o gelo.
Pior que as gargalhadas só as discussões que Rosarinho tinha com a Setôra que se tornaram lendárias no liceu. Rosarinho tudo punha em causa. As suas opiniões por serem tão diferentes, não poucas vezes nos levaram às gargalhadas, enquanto Rosarinho olhava para nós não parecendo compreendê-las. As faltas colectivas, a Moral, começaram a chover. A fúria estalava, a Professora dizia-a imoral, e ela respondia que tão-somente amoral.
Não se tornaram mais graves, por termos na turma as que viriam a ser as duas melhores alunas femininas em Portugal: a Mónica com média de vinte, seguida pela Rosarinho com média de 19,8.
Foi aí que começou a doutrina.
Ainda hoje me espanto, por uma miúda com dezasseis anos se atrever a dizer, naquele tempo, a uma professora, que do seu ponto de vista, a Professora estava enganada.
E as discussões continuavam pelo intervalo fora, já só entre nós, com argumentação forte.
Mónica contrapunha com inteligência, defendia-se bem, sem nunca pôr nada em causa.
Isabel e eu enfeitiçadas.
Rosarinho lá passou de tímida a revolucionária, por intrinsecamente não ter qualquer sentido hierárquico, ou melhor, por, tão só, não reconhecer hierarquias. Gravitávamos à sua volta em menos de nada, Mónica incluída.
Mónica, Isabel, Rosarinho e eu, as quatro da vida airada.
A meio da faculdade, Tomás namorado de Isabel, mais velho cinco anos, quis casar antes de ir para a guerra. Por influência de todas nós, mas principalmente da Rosarinho, Isabel acabou por dizer que queria acabar o curso, deixando-o partir sozinho.
A que mais mudou desde o liceu e repentinamente foi Mónica, a mais brilhante, a mais culta, também a mais conservadora, depois de conhecer um Smith, partiu com ele para conhecer mundo, deixando o quinto ano de Direito por fazer. Por influência de Rosarinho, que dizia que o Direito não fugiria. Voltou três anos depois para o acabar, com médias superiores.
Rosarinho a mais inquieta acabou o curso de História que nada lhe dizia, entrando para um museu, mundo parado demais para toda aquela inquietude. Fez o, ou dos primeiros MBA que apareceram em Portugal e é hoje uma reconhecida gestora.
Quando Tomás voltou, traumatizado, alcoolizado, casou com Isabel, que decidiu deixar de trabalhar, já com o estágio de advocacia feito.
Tivemos algum medo, que Isabel a estouvanada, não aguentasse uma vida de clausura.
Saiu-se bem, arranjando novos interesses, sendo mãe, recuperando Tomás, e ainda hoje dá gosto vê-la sentada no chão encostada às pernas de Tomás, que brinca sempre com os seus cabelos. Têm quatro filhos.
Mónica apaixonava-se ora aqui ora ali, desaparecendo às vezes no estrangeiro por meses. Talvez por ter sido a que mais tarde se rebelou contra o “status quo”, tivesse demorado mais tempo a perceber que poderia ser o que quisesse, que não teria de aceitar integralmente o “estabelecido”, que o poderia reinventar, que precisava de saber o que lhe faltava para se sentir feliz. O sinal de amadurecimento apareceu quando decidiu fazer o Doutoramento, casando pouco depois com Luís. Tem dois filhos e luta por ser devidamente reconhecida na sua carreira de juiz, e na de Professora Doutora. Há dois ou três anos atrás, para lhe não darem um cargo que merecia, ouvi alguns notáveis dizer que era inconstante...julgada por dez anos de vida, entre os vinte e dois e os trinta e tais, “esqueceram” os vinte e oito anos posteriores. Ainda têm medo das mulheres brilhantes, inteligentes e independentes, alguns homens.
Rosarinho a mais exigente continuava só. Irreverente, inteligente, de sorriso fácil e gargalhada espontânea, independente como poucas, sem papas na língua, assustava os homens que dela se aproximavam. Dizia ela que, só amaria um homem muito especial e que só um homem assim a aceitaria, o que era verdade, principalmente um homem da nossa geração. Teria acabado de fazer trinta anos quando se juntou com o Pedro, que soube respeitar a sua independência, e a sua constante provocação. Têm também dois filhos, nunca tendo casado.
Divórcios? Só o meu.
Mónica, Isabel, Rosarinho e eu, as quatro, que continuamos, da vida airada
Mulheres da minha geração, que se bateram pela igualdade, pela independência, pela carreira, pela vida familiar, pelo Amor, pela Felicidade, pelo Sucesso e que conseguiram tudo obter.
Mulheres da minha geração, que romperam com o establishment renegando o passado, fazendo a ponte com um Futuro desconhecido, principalmente na educação dos filhos, sem terem nenhuma hipótese de feedback, saindo-se muito bem.
Mulheres da minha geração, corajosas, que souberam tudo pôr em causa, antes do 25 de Abril, procurando o que seria melhor para elas, tendo a coragem, em alguns casos, de retomarem os passos renegados, deixados para trás, reconstruindo-os de maneira surpreendente.
Mulheres da minha geração, que sonharam mudar o Mundo, mas que definitivamente, ajudaram a mudar o seu País.
Mulheres de Sucesso, que lutaram, que sofreram, que caíram e se levantaram, que procuraram e encontraram, que não desistiram, Mulheres que souberam ser Felizes.
Enfim, MULHERES! que tenho o privilégio de ter por Amigas.














