
Barbara Matthews
Este ano não festejei nem Abril nem Maio. Não festejei na blogosfera, bem entendido, porque no coração festejo em cada dia que me lembro e lembro-me muitas vezes.
Tal como o Natal, Abril é quando um homem quiser e uma mulher também.
Passeando pela blogosfera e tenho-o feito tão pouco, ainda assim deu para perceber o saudosismo que por aí anda..... à solta e eu sem o compreender.
Falam de que não foi para isto que se fez Abril, que falta fazer Abril, que o povo já não ordena, eu sei lá, um monte de coisas, mas quem fala sempre se põe fora da acção e é isso que eu não entendo.
Vejamos as minhas verdades:
Quem fez o 25 de Abril foram uns capitães, a quem agradeço do fundo do coração, que estavam fartos das comissões nas colónias, fartos de verem morrer e ficarem estropiados camaradas seus, fartos de verem morrer filhos com febres, paludismo e malária.
É bom que se não esqueça que não houve povo algum, que não houve partido algum, nem mesmo o PCP.
É verdade que bastou 13 anos de guerra para acabar com um regime que tantos lutaram para deitar abaixo sem o conseguirem. É verdade que deram volta à cabeça dos militares do quadro, mas quem lhes deu uma visão diferente foram os milicianos, principalmente os alferes milicianos, quase todos oriundos de faculdades. No meio desses alferes estariam também PCPs, mas a maioria não tinha partido, eram só contra uma guerra que não tinha sentido. Eram só contra o regime.
A democracia viria mais tarde ou mais cedo, penso, o que ninguém sabe é em que condições e desse passado alternativo ninguém quer falar. Muitos sempre atiram pedras contra a descolonização, sem nunca quererem imaginar como teria sido a descolonização nesse passado alternativo.
O Povo saiu à rua rua, todo, há sempre excepções, a festejar. No 1º de Maio viram-se Mercedes, muitos Mercedes, os BMs ainda não tinham status, Porsches , Ferraris a buzinar pelas ruas, com cravos na mão. Inesquecível.
O Povo nunca ordenou, o Povo sonhou ordenar, esse Povo que somos todos nós, votou e entregou o poder com que sonhava nas mãos de outros, pensando que sonhavam a mesma coisa....não sonhavam! votou outra vez e outra e outra e outra, entregando o poder àquele, dando maioria absoluta e este por diversas vezes, e por uma vez a áquele.... enfim, apesar de tudo não tenho dúvida que estamos, esse Povo, o Povo Português, melhor do que estávamos antes de Abril de 74.
Está mal? E de quem é a culpa? Não me falem em governantes.
A culpa é de todos nós, e de cada um de nós que milita ou não milita, que vota, ou que não vota, mas que de todos os modos escolhe. A mim sempre me surpreende esta facilidade com que descartamos responsabilidades, esta facilidade com que nos sentamos no sofá a mandar bocas para os outros
A culpa deste saudosismo bacoco e minha e tua. A culpa de haver ou não haver Abril é minha e tua.
Nada de tentar desculpabilizar.