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3 de novembro de 2008

DESTINOS?




Paulo Medeiros



Vêem-se ao longe duas figuras naquele imenso areal deserto a essa hora da madrugada. Uma mulher idosa que avança determinada com uma criança pela mão, que salta e brinca ao seu lado. Chegada a um local já anteriormente escolhido, onde está um tronco que parece trazido pela maré, pára e puxa a criança para mais perto de si, inclina-se e fala com ela que a ouve com atenção.
É dia de solstício

Vêem-se ao longe duas silhuetas naquele imenso areal deserto àquela hora da madrugada. Uma já bastante curvada, a outra, pelo andar, é uma jovem mulher, avançando lado a lado, parecendo que se dirigem para o mesmo local onde continua o mesmo tronco, de há tantos anos atrás e ali chegadas param.
Amélia está ali, mais uma vez, ajoelhada, com gestos sempre iguais, gestos que se perdem na memória dos tempos, pondo as mãos em concha e sorvendo o ar que contêm, como de algum líquido druida se tratasse. A mais jovem, um pouco de lado, fica em pé olhando o horizonte.
Amélia ali está como de costume, naquele dia especial, cheia de uma determinação que reconhece, impregnada de uma força estranha, olhando agora o céu que se torna rubro e dourado, levanta os braços ao céu e de seguida escava a areia soprando para dentro do buraco acabado de fazer, o mesmo ar que acabou de sorver, cospe para dentro dele, tampando-o em seguida com cuidado, para que fique preso durante todo esse ano, enquanto faz rezas, que não quer ouvir, com finalidade que não quer conhecer.
Amélia vira-se para ela, como sempre fez, inclinando a cabeça, para lhe dar a conhecer que o ritual estava acabado. Olha a jovem mulher perguntando-lhe se a memória a ajuda a reconhecer o local certo e se saberá repetir todos os gestos que viu tantas vezes fazer enquanto criança, por ter chegado a hora de ser herdeira dessa sabedoria ancestral.
Sorri divertida. Se Amélia soubesse o horror que tem aos rituais, perceberia que estava profundamente enganada e que nunca aceitará ser herdeira daquela sabedoria, não quer fazer parte de nada que não entenda, não quer fazer parte de rituais e muito menos cuspir ou andar assoprar para dentro de covas feitas na areia.
Olha-a de soslaio e diz-lhe que faz mal em não acreditar por estarem já, desde que nasceu, os astros conjugados para ser ela assumir o que outros fazem com tanto cuidado.
Percebe que Amélia está a falar do que pensou sem ter verbalizado e sente um arrepio de medo.
Amélia ri-se, como se ela fosse parva, mas vê o seu ar sério, preocupado e acrescenta, docemente, que não está nas suas mãos poder alterar o destino, que está escrito e com os seus 25 anos é tempo de aceitar o que há muito recusa.
A resposta sai agreste. Pode sempre alterar o destino, quer lá saber do que está escrito. É bom que Amélia acredite, que jamais fará parte de sopros de rituais e de covas. Mal disse covas, percebe que usou a palavra errada, covas haverá sempre na sua vida ou na sua morte.
Sem saber porquê sente uma ameaça no ar, mas pergunta, mais agreste ainda, se Amélia sabe porque há tantos anos a não acompanha, se percebe o asco que tudo aquilo lhe faz, se sente que toda ela se rebela contra esses rituais que não percebe nem quer perceber, se alguma vez entendeu a repugnância que tem por tudo, tão pouco, que viu durante a infância.
Amélia olha-a bem de frente e responde que sabe de tudo isso, mas que chegou a hora de ela deixar a recusa, é tempo de assumir o destino.
Toda ela vibra na recusa e diz um não veemente.
O olhar de Amélia é aquoso de tanta ternura. Lembra-se bem da reação que teve, já lá vão tantos anos, mas percebe que com ela a recusa é maior, mais determinada e que nestes tempos os rituais parecem mais estranhos. A ternura escorre atingindo-a, mas com raiva sacode-a e Amélia sem alternativa avisa-a para ter cuidado com o que fará da sua vida, que não recuse o seu destino, ou o destino poderá vir a vingar-se.
Palavras ameaçadoras que ficaram a pairar……
Frente à cova onde Amélia foi enterrada, no ano seguinte, sentiu que covas era o que haveria mais na sua vida até chegar à sua, mas resistiu sabendo que o destino estava nas suas mãos, sabendo que há uma reação a toda a opção, assumindo, mesmo assim, que seria ela a escolher a reação.
Tanta cova que encontrou na sua curta vida! Tantas covas que teve à sua frente, algumas delas tão dolorosas. Quando percebe que está chegado o tempo de encontrar a sua, parte calmamente sabendo que foi sua a escolha, que conseguiu dar a volta ao seu destino
ouve, então, uma gargalhada forte, trocista e longínqua, que acompanha o seu último suspiro.



18 comentários:

babooshka disse...

The image is absolutley stunning

paperlife disse...

Caramba! Que coisa bem escrita e que conteúdo, ao contrário do que pode parecer, tão actual!

Obrigada. :)

Bartolomeu disse...

As covas da vida serão inevitáveis e tão em maior número, quanto o destino determinar a permanência nesta praia... soprando e rezando.
Clara, esta manhã dos destinos...
;)

claras manhãs disse...

Olá Paperlife

Bem-vinda!
Obrigado, mas os teus blogs....um espanto!

beijinho

claras manhãs disse...

Estás vivo!!!!!!
Bartolomeu, as saudades que tinha tuas.

Os destinos são claros?
Nem sempre Bartolomeu, nem sempre.

Beijinho

claras manhãs disse...

Yes it is, Babooshka!
You can find, Paulo Medeiros, a portuguese photografer at

http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=14136

Meg disse...

Passei para te ler... e que texto!
São histórias para ler e reler.
E deixar-re um abraço

xistosa - (josé torres) disse...

Quando cheguei ao fim é que respirei ... não foi num fôlego, mas quase que perdi a respiração.

Não pode ser, no fim, a morte.
Sei que se ouvem campainhas ao longe ... e é um crime uma morte jovem.

Já respiro naturalmente.
Naturalmente já acabei de ler tudo e naturalmente senti um nó.

Uma boa semana.

(tenho andado afastado, além de me ter tornado escravo dos blogs, tenho trabalho ... e vou arriscar ir a Manchester de avião.
para já, tenho as passagens ... só me falta o pára-quedas.
Também tenho aulas para aprender a voar e já vou esbracejando ...
Mas assumi compromissos e nunca falhei ... não seria agora.
Vou aparecer.)

CatarinaGarcia disse...

Olá Claras Manhãs,
desculpa demorar a responder mas tenho andado afastada do blogue, estou com muito trabalho :)
Não conhecia a Marta Zafra não, parece-me ser uma ilustradora recente. Gostei da primeira página do site dela e dos trabalhos mais recentes, só acho que em alguns trabalhos ela podia dar mais enfase a certos elementos que nos fazem abstrair da parte mais interessante do desenho.
Obrigada pelo link e deixo aqui outro blogue novo que gosto bastante: http://www.urbansketchers.com/
Vale a pena ver.
Uma boa semana,
Catarina

claras manhãs disse...

Olá Meg


Que bom teres aparecido.
Fico mesmo contente.

Um beijinho grande para ti

claras manhãs disse...

Olá Xistosa


Tem de ser a morte, Xistosa, para pensarmos se o destino é ou não marcado.
A morte essa é certa. Mas o resto, o caminho? será ou não?

Não vai ser desta que o avião caírá, está descansado.
Não és tu que dizes que nóa as más rezes sobrevivemos a tudo?
Olha, agora sou eu que tenho de sobreviver a um raio de uma gripe, que não me larga nem deixa a febre baixar.

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Catarina


Tu é que és a especialista!
Já fui ao blog que deixaste e já está nos favoritos.
Tens razão vale mesmo a pena.
Obrigado.

beijinho

Fatyly disse...

Creio que todos nascemos com um destino e no tempo que permanecermos vivos temos e devemos lutar para ultrapassar os buracos do "areal", no melhor desafio que a vida nos oferece.
Hoje e olhando para trás digo ainda mais convicta: olha lá destino...foste cruel e amoroso...mas ainda estou aqui.
As rezas e rituais, a fé em alguma coisa, etc, etc. são meios que podemos encontrar para irmos em frente até à cova final.

Uma beijoca

claras manhãs disse...

Olá Fatyly


Ainda me lembro que pensas assim.
Eu continuo com dúvidas sobre o destino e custa-me a aceitar o Determinismo.


Beijinho

Nuno de Sousa disse...

Quase q dava para fazer um filme, impressiona a forma como escreves, em poucas palavras consegues fazer uma grande e bela história. Adorei amiga.
Bjs grandes e continuas em forma :-)
Nuno

claras manhãs disse...

Olá Nuninho


Fizeste-me rir e lembrar, que nas composições da escola, sempre me diziam que teria de aprender a desenvolver, porque escrevia como se estivesse a escrever telegramas.
Naquela altura usavam-se muito os telegramas.

Beijinho

inespimentel disse...

Minuxa, belo texto!
Aflige-me quando o destino se apresenta como uma inevitabilidade anunciada...
Gosto de sentir a "brisa" do livre arbítrio, ainda que a margem de manobra não seja total chega para escolhermos os rituais que queremos herdar e os queremos deixar "caír"!
uando a tradição se transmite assim, sem apelo nem agravo, a herança é um fardo bem pesado!

claras manhãs disse...

Olá Inês

quanto tu gostas, fico feliz, quer dizer que sentimos da mesma maneira, e temos tantas coisas parecidas....
Obrigado

beijinho grande