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8 de setembro de 2008

NUVEM

É só musical. Ouçam-no enquanto lêem. Depois, se o quiserem continuar a ouvir, é convosco.






René Margrite



Maria Antónia, tinha quase sempre a porta aberta, de feitio crédulo e optimista, deixava que por ela entrasse meio-mundo. Uma porta cuja antecâmara era uma praia, onde de vez em quando, muito raramente, tinha necessidade de convidar alguém a sair.
Passada a praia. sentia-se um oásis de paz e de bem-querer
Um dia quando a porta só estava entreaberta, viu entrar uma nuvem pequenina, clarinha, mas que mal chegou à entrada, começou a deixar cair água em abundância, molhando tudo e todos que ali se encontravam e pondo-os em debandada
Ficou a olhar a nuvem que quase lhe sorria e que com toda a calma, como se mais nada tivesse para fazer, se encaminhava para ela, voando com u-ma len-ti-dão
Quando lhe roçou no braço, Maria Antónia ficou enfeitiçada olhando o que a nuvem lhe tentava mostrar, mas não queria acreditar que pudesse haver tão grande sonho, um sonho que lhe levaria uma vida inteira para realizar
e a nuvem, devagarinho foi-se infiltrando, enchendo-a de um bem estar e Maria Antónia pensou ser capaz de arcar com aquele sonho tão belo. A nuvem não a largava envolvendo-a cada vez mais e melhor, naquele encanto que era só seu.
Mas como é de calcular uma nuvem, embora possa não parecer, tem mais para fazer e teve de deixar Maria Antónia à sua sorte e à sua vontade de fazer crescer o sonho ou de o deixar mirrar.
Maria Antónia começou entusiasmada, mas o sonho, talvez por ser tão grande, ou tão belo, ou tão mágico, fez-lhe medo
andou com ele para a frente e para trás, revirou-o por todos os lados, avançou um bocadinho, a medo, mas cada vez o sentia mais pesado e quando um sonho nos embala é sempre alegre e ligeiro, pensava Maria Antónia com ela própria, enquanto o ia deixando deslizar por ela abaixo, com receio das desilusões que ainda lhe poderiam aparecer durante a realização daquele sonho.
Acabou por o deixar escorregar até aos seus pés, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo, desesperada por já não ser capaz de, aos 42 anos, agarrar com força e não largar um tão mágico sonho.
A nuvem apareceu insistente e Maria Antónia aceitou-a mais uma vez de braços abertos, mas quando ela se infiltrou já não lhe viu tanto encanto, já não lhe reconheceu a magia, já não achou tão belo o sonho e devagarinho, muito devagarinho foi baixando os braços, vencida.
A nuvem partiu mais escura do que quando tinha entrado, mais pesada, rejeitada.

12 comentários:

JúliaML disse...

lindo sonho de bem-querer. senti-me embalada nele :-)

Fatyly disse...

Etapas da vida que perante um sonho tão idealizado nos levam a baixar os braços e que nos deitam por terra. Com isso e sem darmos por isso afastam-se as nuvens escuras e...crescemos!

Enquanto lia nem imaginas a quantidade de pensamentos que me vieram à cabeça. Sensacional!

Beijos

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá, belíssimo texto, comoveu-me, gostei!
Beijinhos,
Fernandinha

Pena disse...

Preciosa Amiga:
Uma nuvem? Foi um sonho.
"...A nuvem apareceu insistente e Maria Antónia aceitou-a mais uma vez de braços abertos, mas quando ela se infiltrou já não lhe viu tanto encanto, já não lhe reconheceu a magia, já não achou tão belo o sonho e devagarinho, muito devagarinho foi baixando os braços, vencida.
A nuvem partiu mais escura do que quando tinha entrado, mais pesada, rejeitada..."

Incrível de criatividade e delicia, esta nuvem mágica.
Pena, a parte final.
Excelente. Adorei!
Beijinhos de felicidade
Oxalá a nuvem a proteja.

pena

claras manhãs disse...

Olá Júlia

Que saudades!
Sei que a culpa é minha, mas...às vezes as coisas não correm como queremos.

Beijinho grande, grande

claras manhãs disse...

Olá Fatyly

Os onhos às vezes podem ser grandes de mais.
Parece que não, mas depois pode-se sentir alívio, tal como disseste.

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Fernandinha

Bem-Vinda!
Encontramos em alguns sítios, temos gostos parecidos e fico feliz por a ver por aqui.
Obrigado Fernandinha

beijinho

claras manhãs disse...

Olá Pena

sorriso feliz
Fico contente por teres gostado
A parte final...às vezes há nuvens mágicas que não conseguimos agarrar e é sempre uma pena.

Obrigado pelos desejos de felicidade, que daqui partem para ti com igual intensidade.

beijinho

xistosa - (josé torres) disse...

Afinal o sonho-nuvem continua pairando, não sei se entreaberto pela porta.
Por vezes arcamos com demasiado peso e temos de afrouxar ... e os sonhos, são isso mesmo, devaneios ou delírios que nos podem prender e pesar, pelos castelos que nos fantasiam.
Normalmente são abstractos.
Mas quando se soltam, ficamos livres... Não podemos regressar ás nuvens.

Carla disse...

nem sempre temos força para vivermos os nossos sonhos...às vezes o comodismo leva-nos a aceitar a realidade sem a cor do sonho
...adorei ler-te, nem imaginas quanto!
beijos

claras manhãs disse...

Olá Xistosa


Mas os sonhos podem ser também o que nos faz mexer e avançar, podem ser, deveriam ser, mágicos, sempre.

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Carla


Como sempre entendeste-me bem.
Pode ser triste viver sem a cor dos sonhos.

Beijinho