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22 de setembro de 2008

GUERRA NO IRAQUE



Depois de ter visto o filme In the Valley of Elah










naquele chão não havia nada a não ser ódio e morte.
Chão infértil e deserto, sangue empapando a terra, não deixando que naquele bocado o vento levante o pó, chão manchado, parecendo um puzzle do sangue escorrido de tantos corpos, uns completamente esvaídos, outros esventrados, outros ainda mutilados
Dentro do tanque iam todos animados, a música alta, as gargalhadas ferozes, sem se darem conta de como tinham mudado, as gargalhadas que agora pareciam rugidos de animais selvagens, a quem tanto fazia atropelar um cão como uma criança.
Ficou o mundo chocado com fotografias que apareceram nos jornais, eles soldados as vítimas arranjadas à pressa, sem perceberem nada do que se estava a passar, por terem os media falado, porque as hierarquias sabiam bem do que se passava e enquanto não viesse a lume, que a rapaziada e mulherada se fosse entretendo.
As ordens eram para matar todos, porque eram todos terroristas, qual seria o mal de andar com eles por uma trela, se até matavam crianças, atropelando-as com os tanques, por pensarem que se abrandassem ou se desviassem, poderiam cair numa qualquer armadilha, só o medo e as ordens os levavam à crueldade, sem dela se aperceberem, mas sabendo depois da criança terem morto, que a armadilha não existia.


Não, o Senhor não consegue perceber, mas éramos camaradas, amigos verdadeiros. Lá, se fosse preciso, daria a vida por ele, mas aqui.....tudo é tão diferente…
Não sei porque o matei....chateou-me.....passei-me.....não consegui parar a raiva que me provocou. Os outros não tiveram nada a ver com isso, quiseram-me salvar e ajudaram-me a queimá-lo. Era dado como desertor e ficava tudo acabado.
Não posso estar arrependido, não há nada para me arrepender. Eu era amigo dele, todos éramos amigos dele. Andávamos sempre os quatro.....mas começava a causar-nos problemas.....ele não andava bem!
Puseram-nos aqui, para nos darem apoio psiquiátrico, que não precisamos, saímos da ação e para aqui estamos sem nada para fazer, inventando jogos para nos entretermos, continuando a comprar droga.....
Mas o que é que tem já lá não estarmos? Saímos da guerra inteiros, e depois? Que querem?
Continuamos como éramos, nem mais nem menos. Não percebe? Deixámos de ser crianças, agora somos o que aprendemos a ser, não podemos deitar fora aprendizagens que nos formaram o carácter.
Tudo o que antes nos foi ensinado? Mas antes quando? Antes da guerra?
Mas se não nos serviu para nada!!! serviu para chorarmos a primeira morte injusta e inqualificável que infligimos. Julga que alguma vez poderíamos continuar com os mesmos códigos sem enlouquecermos?
Tivemos de nos socorrer de códigos completamente diferentes se quisemos sobreviver e fomo-nos apurando diariamente, ficando mais fortes mentalmente, mais indiferentes, mais drogados
Lá, claro que a consumíamos, tão fácil de arranjar, mesmo ali à mão de semear, para nos podermos aguentar....como cá
Se quiser pôr nesses termos, até lhe dou razão....
É verdade já não sentimos, por isso sermos desumanos, mas só por isso, só porque deixámos de ter sentimentos no mais puro do seu significado, deixámos de sentir, deixámos de tudo sentir, até o ódio, até entre a amizade e a inimizade deixaram de fazer sentido as diferenças, até amor deixámos de sentir, por qualquer ser, até por aqueles que nos deram a vida.
Não sentimos nada.
Quando sairmos daqui? Será a mesma coisa, corpos bem treinados, mentes alerta, droga no bolso, máquinas bem oleadas


10 comentários:

Fatyly disse...

Uma narrativa angustiante e ao ler senti um aperto no estômago, o mesmo que senti num cenário idêntico.
Meninos treinados para serem homens à força - matar para não serem mortos-drogados para cometerem atrocidades apresentadas como troféus de guerra e sem ficarem com sequelas.
Sequelas? em muitos elas farão parte dos seus fantasmas num stress traumático de guerra - quer para militares, quer para os civis que conseguiram sobreviver à incúria dos "mandantes da guerra".

Iraque era dominado terrivelmente por uma ditadura com limpeza étnica brutal numa idolatração sem precedentes, mas Bush plantou o horror dos horrores e quem sofre são os meninos soldados e os civis e irão sair do Iraque como sairam do Vietnam e ficará para história como o maior carniceiro do mundo que se juntará a Mugabe do Zimbavué e Omar al-Bashir pelo genocídio de Darfur, como o da Serra Leoa e outros.

Depois...teremos o silêncio dos mortos vivos entregues às famílias que ficarão numa bola de neve cheia de picos, a deambularem pelas ruas ou em santórios até ao fim dos seus dias!

Bolas...vou dar uma volta!

Um beijo miúda

Nuno de Sousa disse...

Um relato realista, não vi esse filme mas vou querer ver para sentir o que falas.
Guerras que nunca vão dar a nada dando apenas mortes, vidas destruidas, destruição, pobresa a 90% e riquesa a 10%, os únicos que querem guerras para encher os bolsos.

Bjs amiga e gostei deste teu texto,
Nuno

claras manhãs disse...

Fez-te bem a volta, Fatyly?

Espero que sim, porque tens toda a razão em tudo o que dizes.


Beijinho grande

claras manhãs disse...

Olá Nuninho


Gostei tanto da fotografia! e do texto da Marta Vinhais!

Vale a pena o filme, podes crer.

beijinho

Horácio Salgado disse...

No meio de uma guerra, eu fecharia os olhos para crer estar em Copacabana, no Reveillon. Os sons são os mesmos. Bem... desculpe-me...

a voz disse...

ROXANNE, gostei do "nome de guerra"!
Beijinho.
Mário

claras manhãs disse...

Olá Horácio


Não poderia, Horácio, não poderia se quisesse sobreviver
infelizmente

beijinho

claras manhãs disse...

Olá Mário

Sou mesmo despistada!
Não reparei que tinha usado o Roxanne
Foi um blog que abri para um outro projecto, mas que ainda não me decidi a começar.
Não sei se serei capaz de fazer o que queria...
Depois mando-lhe um mail a contar.

Beijinho
M

Carla disse...

perfeita esta descrição que acompanhei com um aperto no coração
beijos

claras manhãs disse...

Olá Carla


O filme é um murro no estômago!

beijinho