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12 de setembro de 2008

ARRÁBIDA II



Lovers of Normandie - Claude Théberge




Naquele verão fui tão feliz!
Almoçávamos quase todos os dias e uma vez por semana encontrávamo-nos, onde quer que fosse, para sermos um, os dois.
Os lençóis voavam, a cama desfazia-se, o colchão onde deixávamos as nossas marcas, tudo nos recebia, na vez seguinte éramos reconhecidos e parecia que os lençóis esvoaçavam com mais rapidez, que as marcas deixadas no colchão nos acolhia
Havia alegria beijos e abraços, conversas risos e ternura. Houve tudo!
Passeios de encantar, Azeitão, Palmela, Sintra, principalmente Monserrate, um deslumbramento feito a dois, onde cada árvore já conhecida, ajudada pela aragem nos segredava murmúrios de encantar, cada esquina, cada curva daquele Monserrate mágico, era nosso. Tudo nos encantava
Vogávamos em mar de amor, acolhidos em embarcação feita de promessas
Depois devagarinho, sem quase se dar por isso, foram-se espaçando os encontros, não havia tantos almoços, dizia que tinha mais trabalho, o que seria natural e eu fui deixando acontecer o afastamento, achando-o natural
Os passeios acabaram, ainda havia os lençóis pelo ar, alegria e beijos, conversa risos e ternura, e havia a espera, a insuportável espera, principalmente quando chegavam as festas ou os fins de semana prolongados, mas de seguida aparecia o paraíso
Ah! Ela tinha razão quanto ao sofrimento e quanto ao precisar de todas as amigas. Foram vezes sem conta que fui ter com ela à sua varanda e bem via o olhar que me deitava, sem nada dizer, fazendo-me sentir privilegiada por a ter como amiga.
Quando chegaram as férias, a espera de insuportável adormeceu meus sentidos acabando por não sentir sequer a falta ou saudades, ou qualquer vontade, passando a vegetar. Não fossem elas, as amigas e teria desaparecido para dentro do meu canto
Quando voltou, já não havia paraíso, continuou a haver lençois pelo ar e beijos, mas já sem risos alegria ou ternura, mas continuava a haver conversa já só quase de circunstância, o meu nome não era pronunciado, passando-me a tratar por amor, o que me arrepiava.
A dualidade veio e instalou-se dentro de mim. Não me apetecia ir, mas ia, começando a magicar desculpas, já tantas quantas as dele. A separação estava eminente, embora nenhum dos dois desse o primeiro passo, tivesse a primeira conversa, ou dissesse a primeira palavra.
Arrastávamo-nos



10 comentários:

Fatyly disse...

e quantos há, que pelas aparências, continuam nesse arrastar e quando dão por ela já é tarde demais!

Beijos e um bom fim de semana

Horácio Salgado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Horácio Salgado disse...

Também vivi um caso parecido no verão passado. Eu e ela convivíamos bem um com o outro, entrosados. Fazíamo-nos necessários para nós mesmos. Ela, particularmente, fazia um pão quentinho maravilhoso. A separação foi inevitável após ela interromper suas atividades comigo, e assim desfizemos um do outro. Que falta me faz aquela torradeira!

Horácio Salgado disse...

Bem... desculpe-me...

Mateso disse...

Quando se ama o amor... a vida é assim. Depois quando se ama a vida , mesmo que haja cansaço relega-se porque se quer sempre viver.
Lindo.
Bj.

claras manhãs disse...

Olá Fatyly

Há sim, muitos.

beijinhos

claras manhãs disse...

Olá Horácio

Ah! mas não há mais belo caso de amor do que o de uma torradeira com o seu dono, principalmente, quando se conseguem entrosar um com ou o outro
Belo!

beijinho

claras manhãs disse...

Olá Mateso


"quando se ama o amor...a vida é assim"
Duas frases e a definição, aí está.

Beijinho

xistosa - (josé torres) disse...

Por vezes acontece ... a vida nem sempre é contínua.
(agora que abri o parêntesis, deixe-me dizer-lhe,
"Almoçávamos quase todos os dias e uma vez por semana, - agora digo eu - jantavam???".
ESTÁ COMPROVADO QUE FOI A FOME QUE OS SEPAROU!!!)
Parece ser difícil manter uma chama acesa.
Por coincidência ou por magnetismo, tenho "conhecido pela net" algumas caixas de fósforos.
Não sei ... o ser humano nunca está bem com o que tem.
Nem sei se ambiciona mais se quer vangloriar-se.
Talvez ambas as coisas.
Mau mesmo é quando nos arrastamos, perdemos a verticalidade e temos que nos subjugar.
Mas infelizmente acontece ...

Olhe, já não estou a comentar o post ... estou a pensar numa amargura ... um dia conto-lha.
Mas aqui, para que os que a lêem, leiam que não ando com aldrabices e jogos rasteiros ...

Desejo-lhe um bom fim de semana e que o domingo custe a passar ... é que 2ª feira é dia de trabalho, só por isso.

claras manhãs disse...

Olá Xistosa


Diz lá que não conheces histórias como esta, ou que nunca te contaram uma.
Há pessoas que não estão satisfeitas com a vida, talvez por não estarem contentes consigo próprias, talvez...

beijinho