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17 de setembro de 2008

ESPELHO, REFLEXO OU REFLETOR?



Parece não ter nada a ver, mas tem tudo








Frederic Larson




Três janelas perfeitamente reflectidas na água, espelhos umas das outras, pensas tu pensou ele, mas na realidade, duas das persianas corridas e da outra janela sai um jorro de luz que o faz pensar que quem estará ali a viver gosta tanto da noite como ele, mas no seu espelhado a luz está apagada
Ou será vice-versa por já nem saber o que é real e o que é reflexo
Mas fica a pensar como é que vive aquela gente de luz apagada que no espelho está acesa, que deve ser o interior deles que será tão rico que jorra luz para o espelho apesar de estar apagada
ou será que o que lá vai dentro é tão negro que não deixa passar a luz para o seu reflexo?
Pára a olhar o que será o real e o imaginado, que dão tão má conta de si que o refletor e o refletido não são iguais.
A imagem que vemos ao espelho nunca é a imagem que os outros têm de nós, sempre nos vemos melhores do que os outros nos vêem. É o espelho que nos deforma ou seremos nós que deformamos o que vemos, é a pergunta que se coloca ao olhar a janela iluminada e a apagada, já sem saber qual delas será o espelho e o espelhado.
Deixa-se ir na onda do pensamento e percebe que sempre teve medo de dar o salto para o outro lado do espelho, por isso lhe fazer tanta confusão a janela de onde sai um jorro de luz que não é apanhado ou no espelho, ou no espelhado.
A confusão já é demais e tenta focar o olhar para ter a certeza de onde parte o real...esfrega os olhos que já deve ser do cansaço de tanto e com tanta atenção olhar, sem conseguir fazer a destrinça entre o real e o imaginado
Cada vez observa com mais atenção e já ia dar um grito de júbilo por pensar que já sabia qual era o espelho, quando percebe que o que julgava espelhado tem mais pormenores e definição que o espelho e fica outra vez na confusão.
Sem se atrever, ainda, a dar o completo salto para o outro lado do espelho, fica quieto, pensando que terá de o fazer mais cedo ou mais tarde, então porque não já, encolhe-se com medo do que virá a encontrar, que isto de ir ao fundo de si fá-lo-á rever o que sabe lá está, mas que por todos os meios quer manter escondido.
Dá um passo devagar, já ficou partido ao meio e acaba por dar o salto para o meio da confusão de tantos segredos que tem guardado com tanta aplicação.
Vai encontrando os mais leves e conforme vai andando aparecem os mais pesados, os que mais doem e quando chega ao meio, será o meio ou só o início, com esperança aguarda que seja o fim, apetece-lhe voltar para trás, sem saber qual o dragão que guarda dentro de si, sem saber o que guardará o dragão, sem querer de nada se lembrar.
É então que ele aparece, deitando chispas para o ar, zangado por há tanto não o querer ir visitar, cheiro a podre que tudo invade, treme de medo por não conseguir perceber o que estará guardando, pedindo-lhe palavras passe, aproximando-se a cada vez que erra. Completamente em pânico grita para o ar uma qualquer charada, que não sabia existir, amansando o dragão que o deixa ver uma porta de trevas que sabe não querer abrir.
Fica ali a olhar, a medir, se valerá a pena prosseguir ou para trás voltar.
Já que chegou tão fundo, o melhor será empurrar aquela maldita porta, que tanto medo lhe faz.
Devagar empurra-a, chiando, rangendo como quem não se quer abrir, a não ser para quem tenha mais vontade de tudo conhecer. Empurra-a decidido, abre-se num repente e o que vê faz-lhe lançar um grito lancinante de terror, é sugado para o meio da acção que já uma vez viveu e a dor é tão intensa que rebenta seu peito, apaga-lhe os olhos, estrangula-lhe a garganta que quer gritar sem nenhum som sair, entregue a si próprio, como sempre esteve, abandonado por quem não devia, sem nunca quererem saber dele, cada vez mais estrangulado, sem conseguir respirar, percebe que é agora que vai desaparecer, então consegue gritar como quem grita pela vida
Dá por ele já deste lado do espelho, cheio de tremuras, sem esquecer o que reviveu, mas quando olha para as janelas reflectidas na água, vê as três iluminadas e iluminados os seus reflexos.

8 comentários:

Fatyly disse...

Muito sentido e quando enfrentamos de caras o que nos aperta a alma o olhar e sentir são sempre diferentes e para melhor.
O que é preciso é ter coragem para tal!

Beijos e um Bom dia

Nuno de Sousa disse...

Sempre belos os teus textos amiga, sabe bem passar por aqui e ler o que aqui deixas, adoro.
Bem como fotógrafo não posso deixar de comentar esta lindíssima foto está mto bela um momento bem apanhado. Gostei imenso.

Bjs grandes amiga e uma boa semana para ti
Nuno de Sousa

claras manhãs disse...

Olá Fatyly


Às vezes a coragem é difícil e nem sempre nos leva a bom porto.
Outras...é como dizes.

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Nuninho

és sempre simpático.
A fotografia, um must não é?

beijinho para ti e para a Lena

Mofina Mendes disse...

Com tanta luz e reflexos, já nem sei de que lado estou. Os espelhos são cegos por dentro e de olhos afiados por fora.

Carla disse...

O outro lado do espelho é uma tentação enorme...mas também a fonte de um medo nem sempre fácil de ultrapassar
beijos

claras manhãs disse...

Olá Mofina

gargalhada
era essa a finalidade.
Por dentro são cegos, sim Mofina, mas do lado de lá do espelho....
serão?

beijinho

claras manhãs disse...

Olá Carla

Tal e qual!!!!!

beijinho