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4 de setembro de 2008

JUNTOS?







Estavam ali virados um para o outro e era como não estivesse ninguém
Cadeiras reclináveis de travessas de madeira com almofadas, em frente o mar tão calmo, azul esverdeado, rochas enormes quase ilhas flutuando e nós invisíveis para os outros e quase também para nós próprios.
Calados, contemplando a diferença de cor no horizonte que desta vez não se misturava entre o céu tão azul e o mar tão turquesa
Às vezes sabe tão bem estar calado, normalmente no mesmo mundo, mas hoje eu sabia que estávamos em mundos diferentes, porque tu nunca adivinharias que já ali não estava, nem a cabeça, nem...ia a dizer que o coração também não estaria, mas não tenho a certeza de nada, só sei que tenho vontade de entreabrir uma porta que sempre pensei fechada, já lá vão quinze anos, mas que desta vez a vontade é forte de poder por uma vez espreitar.
Não sei explicar de onde vem esta vontade, mesmo sabendo o que vou arriscar e tantas vezes nem ter dado hipótese de ela se instalar, não sei porquê desta vez soube-me bem e por mais que pense nos contras e não veja grandes prós, estou tentada a entreabrir a porta

Não, desta vez não estamos no mesmo mundo, estamos de pensamentos afastados e sei lá o que te vai no pensamento, mas que estás diferente isso nota-se
És sempre a mesma, nem sei onde está a diferença, mas sei que o perigo ronda e nem sei como te chegar. Tens uma espécie de ausência, não ouves à primeira, estás mais distraída e com o olhar em alvo, fixo e parece que sou transparente.
Há uns meses atrás se estivéssemos aqui os dois, haveria uma auréola à nossa volta e hoje cada um tem a sua, menos bela, menos brilhante
Tocamos as mãos, mas a tua não agarra a minha, ficando só encostadas
Não sei como te chegar, não sei o que te dizer e tenho medo do que possas vir a contar.
Estamos aqui os dois quase como estranhos
Nunca se conhece ninguém, pensamos que sim quando estamos bem, mas não, nunca se conhece ninguém

Não tenho nada para lhe dizer, nada para contar a não ser a vontade de a porta atravessar, nem saudades tenho de nada, nem da nossa vida de antes, nem do que deixei adiado, tenho só esta curiosidade que me abafa, de poder entreabrir a porta para ver o que está do outro lado, mas se falar, os problemas surgirão como um mar encrespado e como não há nada para contar, fico aqui calada, quase com pena de não haver nada para ser dito

O que me doi é poder estar não estando a teu lado, ou quando me olhas e não me vês, ou quando falo e não me ouves, ou como ainda há um bocadinho que nem sentiste a minha mão a tocar-te.
Não, o que doi é eu estar a teu lado e tu não estares estando, é isso que fere.
Se te perguntar o que tens dizes-me que nada
E assim vai passando o tempo destas férias sonhadas pelos dois e só vividas por mim sem ter troco do teu lado.
Está-se tão bem não está, pergunta ela e eu, cobardemente, digo que sim.

9 comentários:

Fatyly disse...

Nunca se conhece bem o outro(a) e quantas vezes até os próprios filhos(as) que são carne da nossa carne e andaram nove meses dentro de nós e sabes porquê? porque todos nós crescemos, amadurecemos e mesmo juntos poderemos estar ausentes, porque os problemas e o gerir de emoções deles provenientes podemos ter reacções muito além do que pensavam que poderiam ter ou termos.
Cada dia é um dia e fazer um balanço ao passado notamos que todos os dias reagimos, actuamos, pensamos, lutamos de forma diferente.

Juntos, mas afastados talvez num compasso de espera por vezes construtivo, por vezes destrutivo.

Foi o que senti ao ler este teu magnífico texto que como sempre me pôs a pensar e reflectir.

Um beijo sincero

claras manhãs disse...

Olá Fatylysinha


às vezes as pausas podem ser construtivas, tens razão.
Mas quantas vezes onão são!
Vamos crescendo diariamente, o que é bom

beijinho

inespimentel disse...

Ai Minucha sobrevoei este teu post em voo razante, como uma andorinha que se despede de si mesma... até que a Primavera renasça e outros voos lhe possam trazer novidade e alegria!
UM beijo para ti, tb eu tenho saudades... mas não sei porque não regresso...tenho uma cerimónia... um silêncio interior que sei que brevemente vou calar. Também eu estou na expectativa... ontem escrevi um texto certeiro de que gostei bastante, mas entreguei a quem devia, acho que a inspiração está de volta, tb tenho saudades de escrever... a ver vamos...

inespimentel disse...

PS desculpa-me mas a música de fundo deixou-me desconfortável, será defeito meu?

Mateso disse...

Estar , não estando... fazer, não fazendo, olhar, não olhando... o cosequente e o subsequente. O ser e o não estar. ou antes o"To be or not to Be is the question" velho, gasto mas incontestavelmente o fulcro de todas as relações.
Porque fechamos a portas? Talvez, penso eu, porque nunca foram realmente abertas. No ínicio contenta-se com o átrio, depois com a visão do resto. Fica-se muitas vezes feliz quandoe se desconhece a saciedade. E as portas, os silêncios , as vidas, o eu, o outro, permanecem fechados, porque afinal nunca se deram. É assim a vida...
Bj.

xistosa - (josé torres) disse...

Absortos, pensamentos vazios, olhamos e não vemos.
Calados, que as palavras podem ferir.
Mas não ausentes. Ausentes é quando partimos de vez, mesmo no mesmo mundo.
Nem sempre há sol, como nem sempre o tempo está nebuloso.
Sentados a ver o mar, talvez as ondas que deste se emanam, nos envolvam num silêncio.
A porta nunca pode ser um empecilho, tem dobradiças que a fazem rodar ou rodopiar, ao nosso movimento.
Nós é que a comandamos, como tudo o que temos ao nosso alcance, mesmo que seja só o do pensamento.
A figura ou só uma auréola, talvez até uma ausência, podem não ser a realização dum sonho, mas são certamente a verdade duma existência.
Vivida ou interrompida?
Talvez em suspenso.

claras manhãs disse...

Céus! As saudades que tinhas tuas Inês

Nada do que eu faça na blogosfera ficará completo sem ti. Que saudades!!!

Percebo-te tão bem, minha querida que nem imaginas.
Volta quando achares, mas de vez em quando dá notícias.

Quanto à música....não sei
A mim, comovo-me de uma maneira extraordinária, sem saber porquê.
Mas desde que a pus aqui, já a ouvi milheres de vezes, e garanto-te que não estou a exagerar.
Escrevo a maior parte das vezes com este som.
De todos os modos o nome é "SILK ROAD"
Será que não estamos habituados a caminhos feitos de doçura?

Beijo grande, grande, tão contente e tão agradecida, por teres passado por aqui

claras manhãs disse...

Olá Mateso


É verdade, é assim a vida
mas quando o assim é, é triste, não?


beijinho

claras manhãs disse...

Olá Xistosa


Conheço tanta gente assim!
Sempre me faz imensa impressão.
Apetece abanar
Entra, sai, mas faz! experimenta, vive, arrisca!
Logo se verá...se calhar não será pior....

Beijinho