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28 de janeiro de 2009

A OLHAR O MAR



Foto de LUIS BRAVO



Olho-a quando vou a passar, por ter ouvido umas fungadelas.
Chora, aquela mulher que ali está, chora.
Lágrimas gordas escorrem-lhe pela cara abaixo, às mil de cada vez, os ombros tremem, os soluços, penso que soluços, não se ouvem, mas de vez em quando todo o seu corpo estremece.
Aproximo-me, não consigo passar adiante, nunca o consegui fazer perante lágrimas, sejam elas de quem forem.
Ponho-lhe a mão no ombro sem nada dizer, nem sei o que dizer a quem chora daquela maneira e sem eu a conhecer.
Levanta a cara cheia de mil rios, olhos já inchados e começa a falar, uma torrente que galga
- Estou tão cansada, tão farta, tão farta. Sempre quis morrer cedo, mas não, não me foi dada essa hipótese. Só uma vez pensei em me suicidar, mas não, não sou suicida. Porque não haverei de ser? Porque talvez, apesar de tudo, goste tanto de viver e até sei que devo ter coisas para fazer, mas a vida cansa-me tanto….um dispêndio de energias tão inútil, tão fútil, tão… tão… tão trágico, por me tolher, por me cansar desta maneira idiota que me faz ficar tão farta, tão farta, tão farta.
E os rios continuam a vazar daqueles olhos belos, mas tão tristes que quase fazem dó.
- sempre fui maltratada, pelos pais, mais pela mãe, jurei a mim própria que haveria de ser feliz e consigo sê-lo contra tudo e contra todos, mas já não aguento continuar a ser maltratada. Ele em mim só vê merda, e devo sê-lo para continuar com ele ao fim de todos estes anos.
Grita, grita sem fim, quanto mais percebe que me afecta, mais grita, insulta, embirra por tudo e por nada, nunca faço nada bem e para aqui estou a chorar em vez de estar em casa a fazer as malas.
Continuo com a mão em cima do ombro dela, sem nada dizer, ouvindo-a e pensando porque será que às mulheres é dada esta capacidade de sofrimento que em vez de virarem a mesa, partirem a louça, vêm para a rua chorar, viradas para o mar
- gosto dele. Genuinamente gosto dele. Tem este feitio horrível, mas tem coisas também tão boas. Não percebe que esta sua maneira de ser é de uma violência incrível, porque os homens só acham que é violência quando começam a bater, e mesmo assim….
As lágrimas já secaram, percebe-se a sua força interior, percebe-se que é capaz de mais uma vez, pelo que diz, de voltar a casa.
- que será que nos faz gostar de quem nos faz mal? Se um cão nos morder é bem possível que seja abatido, mas amamos um homem que diz que também nos ama, que não se consegue dominar e grita e insulta até mais não poder e ainda diz que a culpa é minha. A culpa nunca é dele, nunca é capaz de pedir desculpa, tem sempre razão, mesmo quando grita sem tom nem som, por nenhuma razão e percebe que a não teve, nunca, mas nunca pede desculpa. Há-de sempre arranjar uma maneira da culpa ser da outra, ou seja, minha. Cansa tanto viver assim e não ser capaz de virar as costas. Cansa tanto, mas tanto, se soubesse o que cansa.
E ali ficamos as duas a olhar o mar, sentado ao seu lado, com o braço por cima dos seus ombros, caladas, a olhar o mar, a olhar o mar



11 comentários:

LB disse...

às vezes olhar o mar acalma a alma...
Belíssimo texto!

claras manhãs disse...

Obrigado Luís
e obrigado pela fotografia.

beijinho

Lucy disse...

Comovente... realista..., como a vida que nos torna tão vulneráveis e frágeis.

Assim se passa com muitos(as)...!

Junto-me ao lado desse mar... abraçando-as.

Lucy disse...

Comovente... realista..., como a vida que nos torna tão vulneráveis e frágeis.

Assim se passa com muitos(as)...!

Junto-me ao lado desse mar... abraçando-as.

Teresa disse...

linda,

como é tranquilizante olhar o mar. é algo que eu nem me atrevo tentar perceber. senti-lo, basta.

Beijo grande e vou enviar-te um e-mail.

claras manhãs disse...

Olá Lucy

Digo-te, tinha sabido bem que houvesse mais uma a abraçar-nos.
Teria sido mais energia que lhe teríamos passado.

beijinho

claras manhãs disse...

Olá Teresinha

É verdade sim, lindona, acalma mesmo.
Cá fico à espera dele.

beijinho

Fatyly disse...

Pois é...pois é... incompreensível "que será que nos faz gostar de quem nos faz mal?" e...e...e... hoje olho para o mar da mesma forma porque ele sempre foi o meu confidente, amigo e carregador de baterias:)

Parabéns ao LB pela foto e a ti pelo texto!

Beijos

claras manhãs disse...

Fatyly, Lindinha


Eu sei, minha querida. Já passou
E o mar permaneceu, sempre

beijinho

inespimentel disse...

ai, ele há coisas incompreensíveis, tão fáceis de compreender...
Gosto do post!

claras manhãs disse...

Olá Inês


pois! são fáceis de compreender, mas continuam a ser incompreensíveis.
raios!

beijinho