7 de novembro de 2008
PARA TI, JOSÉ
O JOSÉ, mandou-me este video.
O que tu não sabes é que no meu anterior blog, já uma vez tinha dito que não havia nenhum Aleluia que não me comovesse até às lágrimas.
Apesar de ser um Agnus Dei, tem a alegria de um Aleluia.
Não há nada como a música para criar Misticismo
Não podia deixar de o pôr aqui.
Encham o écran com esta maravilha.
Obrigado José
PERDIDOS
Carlos AfonsoTinha ido á Chamusca espreitar o rio, tão largo naquele sítio, tão cheio naquele inverno, olhando admirada, fascinada, as marcas que ele lhe mostrava, dizendo com ares sabedores, que aquela cheia não era nada, que visse bem as marcas mais acima, que eram de anos anteriores, que isso sim tinham sido cheias que a terra tinham deixado prenha
Pegando-lhe na mão puxou-a para a levar a andar de barco, amarrado ao pequeno cais, que lhe ia mostrar a força daquele rio quando cheio, que nada tinha a ver com a acalmia de que ela tanto tinha gostado no ano anterior, quando lá fora no verão.
Ela com medo, deixou-se levar por tanto nele confiar, no seu amor de rapariga.
De barco a levou para o meio do rio, onde a força da corrente, tão grande como o seu amor, os levava, sem ser necessário remar, a uma velocidade impressionante, ela sem poder o rio admirar, atemorizada por aquela enchente que não sabia se de amor era ou da corrente.
Quando quiseram voltar, já depois de ele lhe ter confessado que também lhe queria, tanto como o rio lhe dizia, foi necessário toda a sua concentração, com ela ao lado, impulsionando os remos, cada um no seu, ele abrandando a sua força, para compensar a dela mais fraca, para conseguirem chegar ao pequeno cais que os aguardava, dando-lhes a segurança que a meio lhes tinha faltado, já os dois bem estafados, arfando sem bem saberem se era do amor que os consumia, se do esforço que tinham feito, os dois lado a lado, sorrindo satisfeitos por tão bem terem emparelhado.
Estava a recordar esses momentos, sem saber o que tinha acontecido a meio do caminho, agora tantas vezes de costas voltados, cada um remando o seu barco, sem conseguirem voltar àquele cais que tantas vezes os tinha aguardado, dando-lhes a segurança que às vezes lhes faltava, a corrente puxando com força por cada um
Ele remando para um lado, ela para outro, às vezes lado a lado, para logo de seguida percorrerem desfasados o seu caminho, mais doloroso feito sozinho, sem o outro se aperceber que cada vez era mais difícil encontrarem-se, nem que fosse na chegada conjunta ao cais.
Ainda tinham feito um esforço, lembrando-se de como se queriam, de como eram completos quando estavam juntos, se ele tinha sido o rio, ela tinha sido a enchente, se ele tinha sido o barco, ela tinha sido o remo, se ele tinha sido o penhasco, ela tinha sido o farol, mas a corrente era cada vez mais forte e como estavam em barcos separados, não conseguiam remar com idênticas forças, desviando-se cada vez mais um do outro
agora dentro de um mar desconhecido, sem penhasco, sem farol encontravam-se sem se reconhecerem, perdidos para o rio
perdidos para eles
perdidos
6 de novembro de 2008
QUE TAL UMA IDA AO TEATRO?
Proposta do A VOZ PORTALEGRENSE, que tem o programa completo.
porque não ir um destes dias ao teatro?

«As pessoas têm a mania que são donas de cães, de canários, de outras pessoas, de casas, e até da própria terra. Ponhamos os cães e os canários de lado, e vejamos como é que se comportam as pessoas com as casas. Depois a história é simples: a porteira trabalha para a madrasta e depois vem o príncipe, que é mais poderoso, expropria a madrasta e fica com a porteira. Mas como é que é depois da felicidade para sempre? Como é que são as histórias depois de acabarem as histórias?»
[Miguel Castro Caldas]
5 de novembro de 2008
SONHAR OU VIVER
Claude ThébergeMaria fita mais uma vez o caminho que se entrecruza em tantos
Fica zonza só de olhar para um e outro lado e, mais uma vez, de outro para um dos caminhos, não esquecendo os do meio que se abrem em milhares, cruzando-se um pouco mais à frente com mais umas centenas deles e pensa que gostava de ter umas asas para os poder ver de cima e verificar que padrões formam. Encontra outros tão zonzos como ela, nessa procura sem fim e afasta-se, porque é no silêncio e no isolamento que se encontram respostas
Pelos padrões seria mais fácil escolher, se os conseguisse identificar....
Lembra-se com pena que já perdeu as asas, que só se têm enquanto somos crianças.
Relembra o que aprendeu e pensa que poderá estar a viver um sonho, o melhor será ficar quieta à espera de acordar, sem fazer opções cansativas, de ir de um para o outro lado e ter de voltar para trás para tudo recomeçar
Já nem se lembra das vezes que tudo recomeçou para vir sempre dar ao mesmo local, círculo vicioso de onde não consegue sair
caminhos largos e sinuosos ou estreitos e que sinuosos são.
O padrão! O padrão é a sinuosidade, sempre para dificultar, se não poderiam ser ao menos mais direitos, para se poder ver mais ao longe, ela que gosta de horizontes bem largos e de poder espraiar o olhar
Começa por andar de volta, talvez possa não ter de entrar em todas aquelas bifurcações. O caminho será mais longo mas muito mais fácil, já está farta de complicações.
Mas a meio, pensa que será a meio, encontra o que tinha medo fosse acontecer, uma barreira alto e no cimo adivinha, estarão várias das bifurcações das quais ela deveria ao menos ter escolhido uma.
Volta para trás, zangada consigo, pensando que sempre detestou desmanchar o que quer que fosse, e este caminho assim feito, parece os pontos de um bordado que passa a vida a desmanchar.
Maria odeia bordados
Estaca zero, parecendo que nem passado já teve, só tem de escolher o futuro
exatamente! o futuro depende de uma escolha
não a vai fazer para já
Já nem sabe se é a vida que está em causa ou se são só sonhos e simplificaria ao menos saber o que se passa.
Sonhos....sempre sonhou tanto e tão bem. Serviu-lhe de pouco e de muito, quantas vezes não os soube pôr em prática, quantas vezes foram mal aplicados, quantas vezes...
eram tão belos os seus sonhos...quimeras tão difíceis de atingir, mas tão belos, sem eles nunca teria sobrevivido
O caminho não se faz de sonhos, decide,
o caminho faz-se caminhando, optando entre veredas, tendo sonhos no horizonte. Descobre finalmente, que tem de simplificar, é uma das suas características, irá também escolhendo o sonho que terá no horizonte, os mais fáceis primeiro para os conseguir atingir e para mais tarde os mais difíceis, que com o treino passarão a ser também fáceis e assim serão todos atingidos, deixando para o fim o mais belo, porque gostaria tanto de viver aquele em que tantas vezes tem pensado.
3 de novembro de 2008
DESTINOS?

Paulo Medeiros
Vêem-se ao longe duas figuras naquele imenso areal deserto a essa hora da madrugada. Uma mulher idosa que avança determinada com uma criança pela mão, que salta e brinca ao seu lado. Chegada a um local já anteriormente escolhido, onde está um tronco que parece trazido pela maré, pára e puxa a criança para mais perto de si, inclina-se e fala com ela que a ouve com atenção.
É dia de solstício
Vêem-se ao longe duas silhuetas naquele imenso areal deserto àquela hora da madrugada. Uma já bastante curvada, a outra, pelo andar, é uma jovem mulher, avançando lado a lado, parecendo que se dirigem para o mesmo local onde continua o mesmo tronco, de há tantos anos atrás e ali chegadas param.
Amélia está ali, mais uma vez, ajoelhada, com gestos sempre iguais, gestos que se perdem na memória dos tempos, pondo as mãos em concha e sorvendo o ar que contêm, como de algum líquido druida se tratasse. A mais jovem, um pouco de lado, fica em pé olhando o horizonte.
Amélia ali está como de costume, naquele dia especial, cheia de uma determinação que reconhece, impregnada de uma força estranha, olhando agora o céu que se torna rubro e dourado, levanta os braços ao céu e de seguida escava a areia soprando para dentro do buraco acabado de fazer, o mesmo ar que acabou de sorver, cospe para dentro dele, tampando-o em seguida com cuidado, para que fique preso durante todo esse ano, enquanto faz rezas, que não quer ouvir, com finalidade que não quer conhecer.
Amélia vira-se para ela, como sempre fez, inclinando a cabeça, para lhe dar a conhecer que o ritual estava acabado. Olha a jovem mulher perguntando-lhe se a memória a ajuda a reconhecer o local certo e se saberá repetir todos os gestos que viu tantas vezes fazer enquanto criança, por ter chegado a hora de ser herdeira dessa sabedoria ancestral.
Sorri divertida. Se Amélia soubesse o horror que tem aos rituais, perceberia que estava profundamente enganada e que nunca aceitará ser herdeira daquela sabedoria, não quer fazer parte de nada que não entenda, não quer fazer parte de rituais e muito menos cuspir ou andar assoprar para dentro de covas feitas na areia.
Olha-a de soslaio e diz-lhe que faz mal em não acreditar por estarem já, desde que nasceu, os astros conjugados para ser ela assumir o que outros fazem com tanto cuidado.
Percebe que Amélia está a falar do que pensou sem ter verbalizado e sente um arrepio de medo.
Amélia ri-se, como se ela fosse parva, mas vê o seu ar sério, preocupado e acrescenta, docemente, que não está nas suas mãos poder alterar o destino, que está escrito e com os seus 25 anos é tempo de aceitar o que há muito recusa.
A resposta sai agreste. Pode sempre alterar o destino, quer lá saber do que está escrito. É bom que Amélia acredite, que jamais fará parte de sopros de rituais e de covas. Mal disse covas, percebe que usou a palavra errada, covas haverá sempre na sua vida ou na sua morte.
Sem saber porquê sente uma ameaça no ar, mas pergunta, mais agreste ainda, se Amélia sabe porque há tantos anos a não acompanha, se percebe o asco que tudo aquilo lhe faz, se sente que toda ela se rebela contra esses rituais que não percebe nem quer perceber, se alguma vez entendeu a repugnância que tem por tudo, tão pouco, que viu durante a infância.
Amélia olha-a bem de frente e responde que sabe de tudo isso, mas que chegou a hora de ela deixar a recusa, é tempo de assumir o destino.
Toda ela vibra na recusa e diz um não veemente.
O olhar de Amélia é aquoso de tanta ternura. Lembra-se bem da reação que teve, já lá vão tantos anos, mas percebe que com ela a recusa é maior, mais determinada e que nestes tempos os rituais parecem mais estranhos. A ternura escorre atingindo-a, mas com raiva sacode-a e Amélia sem alternativa avisa-a para ter cuidado com o que fará da sua vida, que não recuse o seu destino, ou o destino poderá vir a vingar-se.
Palavras ameaçadoras que ficaram a pairar……
Frente à cova onde Amélia foi enterrada, no ano seguinte, sentiu que covas era o que haveria mais na sua vida até chegar à sua, mas resistiu sabendo que o destino estava nas suas mãos, sabendo que há uma reação a toda a opção, assumindo, mesmo assim, que seria ela a escolher a reação.
Tanta cova que encontrou na sua curta vida! Tantas covas que teve à sua frente, algumas delas tão dolorosas. Quando percebe que está chegado o tempo de encontrar a sua, parte calmamente sabendo que foi sua a escolha, que conseguiu dar a volta ao seu destino
ouve, então, uma gargalhada forte, trocista e longínqua, que acompanha o seu último suspiro.
2 de novembro de 2008
CLARIDADE
Elena & Vitaly VasilievaQuando bebo de manhã a claridade
Da ternura que resta no teu peito
Festejo o encanto e a vaidade
De ter-te nua ainda no meu leito
Quando te toco os flancos a aventura
De ler na tua pele nossos enredos
Recordo da tua boca essa loucura
Que mordeu com ternura os meus segredos
Quero-te assim amor como se fosse
De todos os meus sonhos o mais doce
Um ramo de flores todos os dias
E o tanto que te quero e me querias
Só as palavras roucas que dizias
Na taça de cristal que o Amor nos trouxe
In XXI Sonetos de Amor, ficheiro que me foi enviado por NONAS
31 de outubro de 2008
COISAS DA CHUVA
mas gostava também da chuva, do cheiro a terra molhada que a preenchia dessa certeza de continuidade desse planeta tão belo e tão azul
chovia, chovia e ela aproveitava e ia até lá fora para receber essa dádiva que era poder brincar enquanto a água caía, por gostar tanto de patinhar, ficou-lhe da infância quando era tão proibido aparecer molhada em casa.
Andava sempre com chapéu-de-chuva, tinha-o inclusive no carro. Passava lá o ano inteiro, no banco de trás, todas as estações do ano, mas quando chegava a altura de o usar, ainda o tirava para fora, passeando-se com ele no braço enquanto deixava a chuva cair em cima de si, cara voltada paras os céus, apanhando os pingos de sorriso aberto e feliz.
Alguns deviam pensar que não era boa da cabeça, que se tinha passado, mas sentia sempre uma alegria intensa e nem queria saber se a chuva era forte ou não.
Só não gostava da ventania, excepção feita quando estava em casa e a ouvia aconchegada junto á lareira, então aí tornava a ser feliz.
No meio de toda esta alegria e felicidade havia uma incoerência.
Quando via a chuva a escorrer pelos vidros da janela, qualquer janela em qualquer sítio, quando as gotas parecem lágrimas que lambem o vidro, não se conseguia conter e as lágrimas escorriam-lhe contínuas pelas faces.
Sempre que lhe perguntávamos o que se passava com ela, encolhia os ombros e continuava com as tarefas que tinha entre mãos. As lágrimas continuando a escorrer com a mesma lentidão que as gotas da chuva lambendo os vidros
Tornava-se lenta, numa transformação que sempre nos apanhava desprevenidos, porque se chovesse e as gotas não escorressem pelos vidros da sua janela, nada se passava, aliás até era raro acontecer, visto o gabinete dela, não sei se de propósito ou por pura casualidade, estar virado para o lado em que era raro o vento empurrar a chuva até aos vidros.
A explicação que dava quando conseguia falar é que lhe entrava uma tal tristeza dentro, sem saber como nem porquê, como uma enxurrada que tudo leva à sua frente, até lhe chegarem as lágrimas que não conseguia reter. Sentia uma tal infelicidade....
Num dia em que mais uma vez me tentava explicar o fenómeno, acrescentou baixinho
- ainda bem que isto nunca acontece quando estou sozinha, porque não sei o que faria....
Foi como se tivesse havido uma ameaça, dormente, silenciosa, profunda, parecida com o som distante, baixo, lento e rouco de um trovão. Estremeci, olhei-a de frente e perguntei-lhe o que queria dizer com aquela frase
Ela encolheu os ombros e disse – nada de especial – Agarrei-a pelos ombros
- nada de especial, não Maria Augusta. Desculpa lá, mas isso não é explicação para o que ouvi. Diz lá o que se passa contigo, eu ajudo-te, sabes que sou tua amiga
- não se passa nada. Que queres que te diga? Acontece-me desde há uns anos. Choro sempre que vejo a chuva a bater nas janelas, mas não sei porquê e nem te atrevas em falar em psiquiatras ou psicólogos. Acontece duas ou três vezes por ano, se tanto...não pode ser a minha maneira de limpar tanta porcaria que vemos por aí?
- mas porque disseste aquela frase?
- porque sinto uma infelicidade imensa, sem saber de onde vem, como se sempre ali estivesse, como se nunca me tivesse deixado, como fizesse parte integrante de mim e eu andasse a fingir que sou feliz, ou alegre ou sei lá o quê e durante aqueles momentos não sei quem sou, não me reconheço e tenho medo, mesmo pavor, que essa infelicidade vença e fique para sempre
Abracei-a, sem saber o que lhe dizer
Maria Augusta morreu há três anos, de doença. Um dia que estava com ela no hospital, a chuva batia na janela, ela olhava-a sem chorar, olhou-a durante muito tempo, até me dizer baixinho que a infelicidade sempre tinha morado nela
ela só a tinha tentado espantar
29 de outubro de 2008
A CAMISA
Tom Ford7º JOGO DAS 12 PALAVRAS DO EREMITÉRIO
Ela ali estava, diziam que debotada, mas linda, talvez mais bonita ainda do que quando era nova. Era necessário, talvez apreciar-lhe o estilo. Dengosa, rosada mas tendo ainda e sempre o verde da esperança.
GALANTEIOS foi o que mais ouviu quando era nova, agora….muitas vezes, FALAZ o que se entretinham a dizer sobre ela.
Era dele, homem elegante, BAILARINO que tantas vezes dançara com ela, apreciando a LIBERDADE que lhe concedia no GESTO sempre impecável, dançando com ela em completa SINTONIA.
Quando a tinha, parecia que dela irradiava LUZ, por o SENTIMENTO que nos outros causava ser de admiração e o seu ego enchia, olhava-a, revirava os olhos para melhor a mirar e não poucas vezes ao passar por um espelho espreitava o efeito que faziam, os dois juntos, na assistência.
Como lhe diziam que sempre com ela andava, resolveu fazer uma pausa e por uns largos tempos pusera-a de lado, pensando que quando de novo com ela aparecesse, o efeito seria devastador em quantos os olhassem, principalmente pela HARMONIA que existia entre os dois.
Quando a fora buscar e para ela olhara entrara repentinamente em túnel de ESCURIDÃO. Fora com ESFORÇO que para ela olhara uma segunda vez, como para se certificar que era a mesma. Debotada!
Zangado, com ela na mão, fora confrontar a mulher. A CAPITULAÇÃO fora rápida: sim, era verdade, por engano metera a camisa na lixívia.
Ela por já não estar tão bonita, no entendimento dele, sofreu com a rejeição e passou a ficar em casa, arrumada junto com os trastes
28 de outubro de 2008
22 OLHARES SOBRE 12 PALAVRAS
HÁ UM LIVRO QUE VAI SER LANÇADO COM TEXTOS DOS PRIMEIROS JOGOS DE 12 PALAVRAS
Colectivo a apresentar: "22 Olhares Sobre 12 Palavras" (PVP: 13,00€) - nascido na blogosfera por pessoas que têm em comum o amor à palavra e à escrita.
Apresentações: _ Porto, Palacete dos Viscondes de Balsemão; à Praça Carlos Alberto, 22 Novembro, 2008, 16H - apresentação a cargo de Jorge Castro do Blog http://sete-mares.blogspot.com/ com prefácio de José António Brreiros _ ver blogues em http://joseantoniobarreiros.blogspot.com/ _ Lisboa: Livraria Barata, 05 de Dezembro 2008, 19H30
27 de outubro de 2008
BAILARINA
Isadora Duncan7º JOGO DAS 12 PALAVRAS DO EREMITÉRIO
Estava-se em quarto crescente e nesse crepúsculo a lua, um delgado e fino sorriso de uma boca feliz, descia direita ao mar. Quanto mais próximo estava de o tocar, mais alaranjada ia ficando, até por fim parecer que o tinha tocado, ou seria o mar que apaixonado subia para a agarrar.
Ela estava sentada na areia, os braços rodeando os joelhos, já o crepúsculo ficara para trás, enquanto admirava o pôr-da-lua. Foi ficando. O encanto no coração, em SINTONIA com a noite, deixou a ESCURIDÃO escorrer por ela isolando-a nas suas memórias.
Trabalhava oito horas por dia agarrada à barra, forçando a mente para conseguir dominar o corpo, num ESFORÇO continuadamente suado, exigindo-lhe o desenho correcto do gesto no espaço, a sensação de leveza dada pela tensão de todo o corpo que vibra, para partilhar com quem a via aquela sensação de facilidade que só dá quem chega à perfeição.
Estava no centro do palco, treinando, treinando, insatisfeita consigo por nesse dia não conseguir obrigar a mente a concentrar-se, prejudicando assim o seu trabalho quando o bailado estreava dali a 15 dias e ainda tinha tanto a exigir ao seu corpo, para conseguir fazer com a arte habitual o seu papel de primeira BAILARINA.
Tão depressa ali estava, como o seu pensamento voava em perfeita LIBERDADE para aquele pedido que a fazia sonhar. Repreendia-se de imediato, mas dali a um pouco lá estava ela embrenhada no abraço, daquele outro corpo que admirava a HARMONIA do seu.
Com o primeiro GALANTEIO que lhe fizera, na corrida dos agradecimentos, voltara a cabeça para saber a quem pertencia essa voz que a arrepiara. O primeiro beijo fora dado há uns meses atrás. Era forte o SENTIMENTO que os unia. Agora aquele pedido!
Tinha de se concentrar, tinha de se concentrar no movimento de todo o corpo entre o acabar da pirueta e o salto que ia dar para os braços do seu par. Era difícil esse salto, teria de contrariar o movimento em plena pirueta e aproveitar a energia dela para se lançar no salto, que ainda lhe não saíra perfeito. O seu par resmungava, por já tantas vezes terem ensaiado sem resultado aparente.
O ESFORÇO enorme que fez valeu a pena, como sempre e a estreia foi um sucesso. O bailado ia ficar em palco durante oito dias e tinham combinado casar-se logo de seguida, por ela partir em tournée.
Acesas as luzes, para os agradecimentos, só reparava na LUZ daqueles olhos que não se despregavam dela.
Ao acordar nessa manhã em casa dele, na véspera do casamento, espreguiçou-se feliz pensando no dia seguinte. Ele abraçou-a com amor e avisou-a de que tinham de ter uma conversa séria, já que no dia seguinte casavam.
FALAZ conversa! Ou seria o pedido de casamento que tinha sido falacioso? Sentia-se traída.
As alternativas que lhe dava, três, não poderiam nunca estar em questão. Era a sua profissão!
Ou deixava de dançar, ou trocava de par, ou deixava de dançar bailados românticos, dizia, acrescentando que não a conseguia ver entre os braços de outro homem, principalmente os do seu par de sempre.
Parva que tinha sido! Sempre o soubera ciumento e achava-lhe graça….Mas a sua profissão?
Então, sem lhe responder, com um desgosto imenso, coração desfeito, olhos marejados de lágrimas, dera-se a sua própria CAPITULAÇÃO. Vestiu-se e foi-se embora, fechando a porta de mansinho.
Ah! A vida trocara-lhe as voltas. Sorria quando assim pensava, porque bem sabia que tinha sido a falta de concentração a trocar-lhe as voltas e não a vida.
Em plena tournée e em pleno desgosto, desconcentrara-se num salto e fizera uma má recepção ao solo, partindo o tornozelo. Valera ter sido num ensaio. Sabia que seriam meses, e que nunca mais poderia dançar, ou pelo menos ter como profissão ser bailarina.
Chorara de dor, chorara de revolta por não poder continuar a dançar, chorara por ter ficado sem nada
A lua tinha desaparecido há umas duas horas e ela ali estava sentada na areia, o tornozelo ainda a dar sinais, um ano já passado, a reviver esses dois momentos dolorosos da sua vida, mas as lágrimas tinham já ficado para trás e sabia o que ia fazer num futuro próximo.
26 de outubro de 2008
CEPTRO

O centro desse centro que procuro
E é no centro de ti que a noite cai
Quando te dou o ceptro a arder no escuro
Não há mais veus suspensos nos teus dedos
Nem pedras cintilantes na cintura
Nem restos de palavras nos segredos
No teu altar de seda e de ternura
Mas ser mulher amor é mesmo assim
É ser fulgor eterno num momento
Principio e sempre principio do fim
Do corpo fica só o monumento
Da alma o gosto breve do cetim
Que se desfaz em sonho com o vento
In XXI Sonetos de Amor, ficheiro que me foi enviado por NONAS
24 de outubro de 2008
MADRUGADA
Cliquem no quadradinho preto, para verem em todo o écran, vale a pena, garanto
Ele ia surfar, eu fui com ele para a praia, aproveitar a manhã que começava com nevoeiro.
Enquanto vestia o fato, ia olhando o mar, avaliando se as ondas seriam suficientemente boas e perfeitas para poder gozar o princípio do dia.
Eu sentada na areia húmida olhando o horizonte, que com o nevoeiro estava bem próximo, gostando de o ver a aproveitar bem as ondas e percebendo a disciplina interior, a concentração, a sintonia com o mar e com as ondas, a percepção da escolha, sabendo esperar por uma melhor do que outra e eu olhando relembrava o tempo em que também tinha praticado, sabendo o bem que lhe estava a fazer, o gozo que dava quando a escolha saía acertada
e de repente estava lá outra vez, escolhendo também a onda mais certa para fazer o melhor tubo, em completa sintonia, enquanto via o sol filtrado pelas gotas de água, sem tempo para me comover, mas que ficava impresso na mente, bem melhor que uma fotografia no papel
o gozo de, em pleno inverno de me levantar às cinco da manhã noite cerrada, para poder chegar à praia primeiro do que qualquer outro, tiritando de frio enquanto vestia o fato e assim ter o privilégio de poder ser a primeira a escolher a onda que me apetecesse sem olhar a quem estaria primeiro, por, eu que tenho dificuldade em aceitar hierarquias, saber que são fundamentais, obrigatórias e ai daquele que não as cumpra, as hierarquias dentro do mar.
O sol rompendo devagarinho o nevoeiro, as ondas aumentando, já nem sequer o via tão mergulhada estava nos raios solares que de vez enquanto faziam a água brilhar para logo de seguida se esconderem e reaparecerem cada vez com mais certeza, afastando aquele nevoeiro sempre mágico
céu, mar, nevoeiro, o sol rompendo já com inusitada força e eu
estava sozinha! Nem reparei que tantos tinham chegado, que o mar já estava cheio de pranchas….
ele tocou-me no ombro e quando levantei a cara ficou a olhar para mim
- são saudades mãe? Perguntou quando viu as lágrimas que me corriam pela face
Abanei a cabeça dizendo que não, sem conseguir ainda falar, arrancada tão repentinamente a essa sintonia que nos faz comungar com o Universo
- ah! sei, tocaste no mundo
Eram nove da manhã e tinham passado três horas desde que tínhamos chegado
Às vezes o tempo não existe.
22 de outubro de 2008
MEMÓRIAS
Autor Desconhecido
Quando se cruzaram, mergulharam os olhos um num outro mirando-se bem, deram-se os bons dias, mas não tiveram coragem para romper com as barreiras que tinham há tanto tempo erguido, continuando cada um o seu caminho, bengala na mão, os olhos no chão
cada um deles pensando que já eram tão velhos para poderem voltar atrás
Os passos deles abrandaram pouco a pouco conforme se iam aproximando da respectiva esquina, parando os dois, costas voltadas, cada um pensando que não valia a pena olhar para trás por outro já ali não estar, sem capacidade de se arriscarem a uma nova decepção ou a uma nova troca de olhares, sempre carregados de um misto de amor e de amargura, que lhes poderia ter resgatado a vida.
Qualquer deles tinha sido o mundo inteiro, tinha sido o alfa e o ómega da vida do outro, tinham rompido barreiras e convenções para se poderem estreitar nos braços, tinham-se escondido de todos, cada um deles prometido a um outro par que não queriam aceitar, sem nunca terem tido a coragem de afrontarem os seus e as pessoas de toda a vila, por naqueles tempos não ser permitido fazerem-se “maus” casamentos e quando tal acontecia, os infractores serem ostracizados.
Infelizmente tudo foi descoberto, por os seus olhares quando se cruzavam, em qualquer lugar, dizerem tudo o que sentiam.
As velhas começaram de cochichar, passando rapidamente palavra pela vila inteira, encontrando logo quem os quisesse espiar para descobrirem o seu segredo
Ele, por ser o que faria o casamento desnivelado, fora fraco e não conseguira defender o seu amor, apesar das juras eternas.
Ela, desonrada, apesar de também ter feito as juras, quando o vira aceitar a mulher que lhe tinha sido destinada, aceitara com mansidão fazer o inesperado casamento que o pai lhe impusera, por o par que lhe estava destinado se ter recusado a casar com ela
Ela nunca lhe perdoara a fraqueza, ele jamais lhe tinha perdoado ter casado com tanta pressa, pensando para com ele, que com o tempo teria conseguido fazer compreender aos pais ser ela o seu único amor, a única pessoa com quem poderia ser feliz.
Duas vidas desfeitas, que tentaram fazer felizes outras duas, sem o conseguirem. O amor não esquecido, a amargura de se terem sentido traídos, sempre presente, ausentes para com quem viviam.
Há já vários anos que estavam viúvos, mantendo-se o amor que os unia, mas isso só o sabiam as suas sombras que desesperadas e inconformadas saíam deles sempre que se cruzavam, agigantando-se para mais uma vez repetirem os gestos, ela tão jovem, corpo de bailarina, atirando-se para os braços dele que corria para a poder amparar nos seus braços ainda cheios de vigor, recomeçando a eterna dança do amor.
Casmurros, continuaram o seu caminho sem para trás volverem os olhos
casmurros, cruzar-se-iam amanhã uma outra vez, como vinha acontecendo há já tantos anos, só as suas sombras se reencontrando no amor que sempre se tinha mantido e que a amargura não deixava sentir.
21 de outubro de 2008
PRÉMIOS

O Prémio Dardos foi-me atribuído pela CARLA e pelo LUÍS MAIA, a quem muito agradeço.
“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Os selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”
Dos meus escolhidos, alguns já foram nomeados.
A VOZ PORTALEGRENSE
FUNES EL MEMORIOSO
DIÁRIO DE UM HOMEM BANAL
O PRIVILÉGIO DOS CAMINHOS
FRONT OFFICE
LUGAREJO DE PALAVRAS
INSÉTE
OFÍCIO DIÁRIO
SUBLIME PORTA
MIGALHAS
NÃO HÁ RIOS IGUAIS
A MINHA PINTURA, DESENHO E GRAVURA
VIVO E DE BOA SAÚDE
UMA NOVA CUBATA
UUFFFFFF!!!!!!
20 de outubro de 2008
O SONHO DE MARIA ANTÓNIA

Ah este Outubro! Todos os Outonos!
Maria Antónia sente aquele ar parado, leve e quente, aquela luz filtrada pelas folhas douradas que vão encarniçando deixando no chão um jogo de luz e sombras tão acolhedores.
Sai pelo campo fora e anda perdida olhando a luz e as sombras, tentando adivinhar figuras no chão desenhado, acabando por se sentar no chão quente que lhe transmite promessas de vidas por vir, nuas por escrever.
Deita-se sentido o calor da terra e por cima a sensação do fresco e do calor, conforme o sol lhe toca ora ali, ora acolá.
Nesse doce enlevo deixa-se adormecer e sonha que está num campo desolado e árido à beira de um precipício. Junto dela começam a nascer da terra grandes blocos de pedra que devagar, para não a despertar ou não lhe fazer medo, se vão perfilando, enquanto ao seu redor nasce um campo de flores.
Os blocos de pedra vão tomando forma, primeiro aparecendo uma mão que a defende de rebolar para dentro do precipício: depois o respetivo braço, o ombro de onde sai uma cabeça que se apoia à outra mão e que a olha pensativo vigiando-lhe o sono.
A cabeça abre-se, só um pouco e de dentro dela escorre para Maria Antónia um rio de serenidade para que não se assuste, enquanto lhe mostra o horror do mundo em que vive.
Um mundo feito de pedra endurecida, estéril, árido, onde todos se guerreiam, mesmo aqueles que se dizem amar, ou que já foram amantes. Todos se traem, cada um empunhando a sua verdade para com ela guerrear meio mundo, enquanto o outro meio morre de fome ou de doença. Não há ninguém que estenda uma mão, ou que ajude a levantar o seu vizinho. Todos empurram ou ajudam a enterrar.
Ela defende a sua raça, a humana, mostrando da mesma forma serena que não é assim tão mau.
Há quem individualmente leve punhados de terra conseguindo fazer a sua montanha, com passagens para outros lados sempre estendendo a mão, mesmo o braço, para ajudar a levantar quem precisa. Tenta convencê-lo que o mundo não se destruirá, mesmo que pareça estar a afundar-se. São ciclos de mudança, em hélice, que tão depressa parece que tudo se desaparecerá, como de repente começa a dar frutos, havendo um esforço conjunto para todos se salvarem
A conversa prolonga-se, os argumentos dele, pesados, como bátegas de chuva que nada lavam e que tudo arrastam, que tudo destroem, como são sempre os argumentos de quem fala do que já se passou ou continua a passar
Os argumentos dela, pausados, luminosos, como o sol quando tenta descerrar o nevoeiro, como são sempre os argumentos de quem nada mais tem a não ser a esperança.
Ele olhando-a com ternura com um lado da face, deixando-se embalar pela litania dela que não pára, o outro lado da face olhando o mundo com ar severo de quem com gosto tudo arrasaria, sem saber a qual dos dois cederá.
Desiste de optar, pensando que nada há como lhes dar mais tempo, para ver quem melhor o convencerá:
Se o mundo que ele vê
Se o mundo que ela defende
Acorda estremunhada, levando-se, sentindo uma alegria enorme dentro de si, pensando que o convenceu, sabendo que pouco poderá fazer a não ser a sua parte e acreditando que muita destruição ainda haverá por esse mundo fora até começar a dar frutos o trabalho de quantos, desgarradamente, lutam para o melhorar.
A angústia só aparece mais tarde, quando se apercebe que não sabe quanto tempo foi dado….
18 de outubro de 2008
BOM SÁBADO!
NADA COMO COMEÇAR BEM O FIM DE SEMANA, PARA ISSO ACONTECER A AUTO ESTIMA DEVERÁ ESTAR EM ALTA.
O MELHOR MESMO É REPARAREM COMO SÃO AS ESTRELAS ANTES DE E DEPOIS DE SE MAQUIAREM!
OU ESTE
17 de outubro de 2008
ARTE E BELEZA
PORQUE É UM BOM DIA PARA OLHAR ARTE E BELEZA
de JIA LU DOIS VIDEOS,QUE SÃO RESPOSTA AO TERCEIRO QUE SE CHAMA "100 GREAT NUDES"
Divirtam-se, como eu me diverti à procura
16 de outubro de 2008
BONS BLOGS
Descobri, por mero acaso, este blog A MINHA PINTURA, DESENHO E GRAVURA, que gostei muito.
CATARINA GARCIA dá a conhecer o seu trabalho.
O meu espanto, foi a Catarina só ter 22 anos. Tem um traço excelente.
Para quem gosta de pintura desenho e gravura, este é um blog para se acompanhar, além evidentemente da carreira de Catarina.
Também faz animação e vou aqui deixar um dos seus excertos de animação que já fez.
vejam-lhe o perfil porque tem 3 blogs.
VOLTOU!!!!
Com a sua maravilhosa escrita!
Um blog a não perder, como já o era o anterior, e um template que só apetece entrar e ficar.
LUGAREJO DE PALAVRAS da CRIS
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
15 de outubro de 2008
MÁRIO do A VOZ PORTAGRENSE
OBRIGATÓRIO ESTE POST DO MÁRIO
mas dizem os SENHORES DA POLÍTICA E DA ECONOMIA, que o mercado continua de saúde!!!!
Como é? CHORAMOS OU RIMOS?
13 de outubro de 2008
UMA OUTRA MARIA
A MATESO escreveu no seu belíssimo blog aArtmus, DEGRAUS um espectacular conto sobre a vida de uma mulher, Maria.
O conto, como costume, está excepcionalmente bem escrito, com uma poesia e detalhes habituais na escrita de Mateso.
Apenas achei que era um dos aspectos de uma vida, que haveria mais aspectos possíveis e perguntei-lhe se poderia dar a minha visão de Maria.
Com a autorização de Mateso, aqui está.
Não deixem de ir ler o conto da Mateso, até porque uso a estrutura que achou por bem dar ao texto, que achei muito bem conseguida.
Frederic LarsonAcordou a meio da noite, como lhe acontecia há já algum tempo, sentindo-se a fervilhar de impaciência.
Sentia que havia já um distanciamento entre os dois, palavras esquecidas por não serem ditas, gestos não repetidos por terem sido esquecidos, por isso a insatisfação que sentia, a impaciência a irritabilidade, seria pela profissão que ambos afincadamente perseguiam? seria a rotina?
Levantou-se e foi até à cozinha, sempre às escuras como era seu costume, onde se sentou a comer uma maçã, roída com voracidade, maneira que tinha de deixar escoar todos aqueles sentimentos que a incomodavam, a impacientavam. Olhando a rua que o candeeiro iluminava, perguntava-se onde estava a alegria quando se viam, onde estava a bela recepção quando um deles chegava mais tarde, onde estava....ui! tanta coisa, pequenas coisas, mas que faziam da vida uma festa. Teria de ser a rotina a instalar-se, apropriando-se da vida dos dois e dos seus sonhos. Não, as coisas não poderiam ficar assim, os seus trinta e dois anos e a sua maneira de ser de oito ou oitenta, não lho permitiam, rebelavam-se contra esta situação
Abanou-o, empurrou-o, discutiram, umas vezes azedamente, outras com um pouco mais de calma, mas fez-lhe ver que assim não ficaria, não continuaria, não queria assistir ao acabar do amor entre eles, com um simples encolher de ombros. Fez-lhe ver, que a rotina a matava, que tinham de inventar maneiras de manter acesa a paixão e essa vontade de comunicarem entre eles, mesmos se os interesses não eram os mesmos. Aprenderiam os dois um com o outro.
Maria estava mais uma vez na cozinha roendo uma maçã, o que nunca era muito bom sinal. Ia nos cinquenta e com algum medo das transformações que o seu corpo já sentia.
Deu por ela a pensar como tinham passado apressados os anos....
Não, ela não tinha abrandado nem amolecido. Guerreira, sempre que o sentia mais afastado lá o abanava, tornava a empurrar, discutia mais um pouco e encarreiravam, mais uma vez.
Agora era ela que sentia necessidade de apoio, que não se sentia tão bem na sua pele.
Sim, os interesses de ambos tinham-se afastado mais ainda, mas reconheciam-se nesse direito, nessa independência e tinham sentido que até tinha sido bom para os dois. Entrecruzavam as informações, partilhavam aprendizagens e quando algum parecia mais predisposto a abrandar, o outro espicaçava-o não o deixando entregar-se à rotina. O amor tinha florescido, tinham inventado códigos só deles, cumplicidades e risos que mais ninguém percebia e apesar das asperezas da vida, que não poupa ninguém, tinham singrado lado a lado, tendo consciência que não seriam tão felizes se não estivessem juntos.
Acordara mais uma vez durante a noite.
Acordava, agora, tantas vezes durante a noite, tantas noites desde que ele tinha tido há três meses um ataque cardíaco e ela desde esse dia em que sentira, pela primeira vez, que o podia perder nunca mais dormira bem, quase com medo que ele partisse sem ela se dar conta. No fundo, no fundo tinha medo que ele partisse primeiro....
Ali na cozinha, roendo uma maçã, já não de forma voraz, já perto dos setenta anos, relembrava um tempo em que estivera por um fio o seu casamento, não fora a sua atitude de luta perante a vida e talvez se tivessem afastado de vez. Relembrava o amor que lhe tinha e como ele lhe correspondia, a maneira terna como lhe passava o braço pela cintura sempre que a queria beijar, a forma como lhe retirara os medos da menopausa fazendo-lhe ver que era o princípio da libertação, o princípio de uma nova fase da vida, o princípio da maturidade. Se não fosse ele jamais teria encarado esse período como uma mais-valia. Desse facto adviera uma liberdade para se entregarem sem nenhuns constrangimentos sem estarem preocupados com tempos. O mundo continuava a ser deles.
Ultimamente ele preocupava-se mais com ela, por tantas vezes acordar durante a noite, sabendo o que ela sentia. Não eram já necessárias as palavras entre eles.
Parecendo que a pressentia, sempre acordava pouco depois e vinha amorosamente buscá-la à cozinha, onde sabia que a encontraria roendo uma maçã.
- quantas já roeste esta noite, Meu Amor?



