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20 de outubro de 2008

O SONHO DE MARIA ANTÓNIA





Ah este Outubro! Todos os Outonos!
Maria Antónia sente aquele ar parado, leve e quente, aquela luz filtrada pelas folhas douradas que vão encarniçando deixando no chão um jogo de luz e sombras tão acolhedores.
Sai pelo campo fora e anda perdida olhando a luz e as sombras, tentando adivinhar figuras no chão desenhado, acabando por se sentar no chão quente que lhe transmite promessas de vidas por vir, nuas por escrever.
Deita-se sentido o calor da terra e por cima a sensação do fresco e do calor, conforme o sol lhe toca ora ali, ora acolá.
Nesse doce enlevo deixa-se adormecer e sonha que está num campo desolado e árido à beira de um precipício. Junto dela começam a nascer da terra grandes blocos de pedra que devagar, para não a despertar ou não lhe fazer medo, se vão perfilando, enquanto ao seu redor nasce um campo de flores.
Os blocos de pedra vão tomando forma, primeiro aparecendo uma mão que a defende de rebolar para dentro do precipício: depois o respetivo braço, o ombro de onde sai uma cabeça que se apoia à outra mão e que a olha pensativo vigiando-lhe o sono.
A cabeça abre-se, só um pouco e de dentro dela escorre para Maria Antónia um rio de serenidade para que não se assuste, enquanto lhe mostra o horror do mundo em que vive.
Um mundo feito de pedra endurecida, estéril, árido, onde todos se guerreiam, mesmo aqueles que se dizem amar, ou que já foram amantes. Todos se traem, cada um empunhando a sua verdade para com ela guerrear meio mundo, enquanto o outro meio morre de fome ou de doença. Não há ninguém que estenda uma mão, ou que ajude a levantar o seu vizinho. Todos empurram ou ajudam a enterrar.
Ela defende a sua raça, a humana, mostrando da mesma forma serena que não é assim tão mau.
Há quem individualmente leve punhados de terra conseguindo fazer a sua montanha, com passagens para outros lados sempre estendendo a mão, mesmo o braço, para ajudar a levantar quem precisa. Tenta convencê-lo que o mundo não se destruirá, mesmo que pareça estar a afundar-se. São ciclos de mudança, em hélice, que tão depressa parece que tudo se desaparecerá, como de repente começa a dar frutos, havendo um esforço conjunto para todos se salvarem
A conversa prolonga-se, os argumentos dele, pesados, como bátegas de chuva que nada lavam e que tudo arrastam, que tudo destroem, como são sempre os argumentos de quem fala do que já se passou ou continua a passar
Os argumentos dela, pausados, luminosos, como o sol quando tenta descerrar o nevoeiro, como são sempre os argumentos de quem nada mais tem a não ser a esperança.
Ele olhando-a com ternura com um lado da face, deixando-se embalar pela litania dela que não pára, o outro lado da face olhando o mundo com ar severo de quem com gosto tudo arrasaria, sem saber a qual dos dois cederá.
Desiste de optar, pensando que nada há como lhes dar mais tempo, para ver quem melhor o convencerá:
Se o mundo que ele vê
Se o mundo que ela defende
Acorda estremunhada, levando-se, sentindo uma alegria enorme dentro de si, pensando que o convenceu, sabendo que pouco poderá fazer a não ser a sua parte e acreditando que muita destruição ainda haverá por esse mundo fora até começar a dar frutos o trabalho de quantos, desgarradamente, lutam para o melhorar.
A angústia só aparece mais tarde, quando se apercebe que não sabe quanto tempo foi dado….


8 comentários:

Horácio Salgado disse...

Belíssima estrutura rochosa.
A linguagem enfática combina com este blog que não combina com nossos dias.
Bela, belíssima estrutura rochosa.

Bem... desculpe-me...

Fatyly disse...

Li, reli e tornei a ler.
De facto e como diz "horácio salgado" usas há muito, uma linguagem enfática, que sendo ou não menos certo, eu diria "metáforas" e escrito por ti teve um sentido próprio, lido por mim poderá ter outro.

Sonho ou sonhos versus pesadelos com rasgos de esperança em que o tempo, ai o tempo implacável por vezes faz-nos retirar a angústia envolvente porque tudo passa e quando olhamos para trás pensamos: como foi possível ter ultrapassado aquela montanhosa rochosa e vermelha?

Além de amiga sincera sou tua fã pelo que escreves, mas ser-se amigo também é dizer a verdade e como me conheces bem, assumo em dizer-te que este texto foi o único que gostei menos do muito que já escreveste. Foi o meu sentir e peço-te desculpa.

Um beijo miúda, arriba, arriba e um BOM DIA!!!

claras manhãs disse...

Olá Horácio


espero ir encontrar texto novo no teu blog...
Não dou pela linguagem enfática, sabes?
mas depois de o dizeres, rendo-me.

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Fatyly


este texto está há imenso tempo na forja, por não gostar muito dele, mas como não lhe consegui dar a volta, resolvi editar assim mesmo.
Acontece, e o melhor é assumi-lo.

Quanto ao tempo, aqui, não me estava a referir ao "meu" tempo, mas sim ao tempo que terá o mundo para se transformar.
Será muito? ou irá sempre de mal a pior?

beijinho

Fatyly disse...

Será muito?
Não sei, o que a natureza achar que é necessário:)

ou irá sempre de mal a pior?
em todas os ciclos - e basta ler a história - há períodos maus, piores, horríveis e bons, muito bons e acredito que o pior está quase a passar e em breve teremos a bonança.

Uma beijoca

o que me vier à real gana disse...

Mais um blog k vale a pena.
Parabéns!

claras manhãs disse...

És uma querida

por teres vindo responder
Obrigado
tenho a mesma ideia que tu, salvo que não acredito que o pior esteja para acabar.

beijinho

claras manhãs disse...

Bem-Vindo Carlos

e com o elogio que fizeste, o melhor é apareceres mais vezes
sorriso

Beijinho