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10 de outubro de 2008

ILUSÃO





Helene Knoop




Era pequenina ainda, tão pequenina, a Amélia quando começou a pensar no futuro, quando começou a desejar ser um dia mais tarde feliz.
Não teria mais de oito anos, quando no meio do caos em que vivia teve um sonho, Amélia nunca conseguiu dizer se estava acordada ou a dormir, tão bem delineado lhe apareceu que julgou ser verdadeiro.
Sonhou que um dia haveria de ser tão amada, mas tão amada, que ele se transformaria num anjo e a levaria nas suas costas a passear pelo Universo mostrando-lhe a Lua, Neptuno ou Marte, e que a levaria aos saltos pela Via Láctea.
Depois desse sonho, Amélia tornou-se indiferente a tudo o que lhe faziam, podia cair o Carmo e a Trindade, que ela nem queria saber, estando sempre escondida dentro do sonho.
Foi crescendo e o caos á sua volta cada vez era maior, mas continuava escondida, ausente de tudo e de todos, esperando a maioridade, que pensava ela lhe traria o sonho ou o anjo.
Um dia caiu-lhe, quem ela julgava ser um anjo, no meio da sopa, quando o João lhe apresentou num restaurante um amigo e ela riu pela primeira vez desde há muitos anos e foi brilhante, sedutora, rindo-se ele com ela.
Amélia resolveu ir viver com o anjo, acabando por descobrir que de anjo nada tinha, que o amor era pouco e a felicidade não existia...
Vagueou pela vida procurando o sonho, não acreditando que não existisse, por não ser possível ter-lhe aparecido tão nova e tão definido, para chegar à conclusão de ser uma simples e dramática ilusão.
Estaria nos quarenta e muitos, já esquecida do anjo, fabricando a sua felicidade diariamente, cínica quanto a homens, anjos ou sonhos, tendo aprendido à sua custa que mais vale admirar a Lua e as Estrelas cá de longe, do que acreditar que algum dia poderia lá chegar perto.
Amélia foi a um casamento de uma amiga, já o terceiro era certo, mas mesmo assim romântico nas juras eternas, e ficou numa mesa onde não conhecia ninguém, a maior parte das amigas divididas entre os diversos casamentos que tinham acontecido naquele dia
A conversa estendeu-se, ela tão distante conversando sobre tudo e nada, apenas reparando num dos homens, que era mais alegre do que habitualmente são as pessoas nestas idades, como se a vida lhe tivesse sido fácil, leve e que era envolvente. Achou graça, nada mais.
Uns dois ou três meses depois, Amélia voltou a encontrar o desconhecido alegre e leve, num workshop. Uma semana inteira de intenso trabalho, mas que à hora de almoço se transformava em gargalhadas e havia Sol, mesmo quando a chuva era intensa.
Passaram a encontrar-se quando lhes era possível e o desejo foi-se instalando, resolvendo os dois que o melhor era colmatá-lo, ficando sempre a permanente sensação de fome
Por isso, para estarem mais perto, foram viver juntos, pensando ela que tinha encontrado o seu anjo, que há tanto tempo tinha esquecido, mas que a levou nas suas costas, voando, a passear pela Via Láctea, foram espreitar Neptuno e Marte, tendo ela pela primeira vez passeado pelo o Universo, deixando para o fim a Lua.
Lá sentados, ele disse-lhe que se tinha apaixonado por outra.
O seu anjo em mil pedaços ficou desfeito, mas sempre se lembrava que pelo menos tinha descoberto o Universo e que por lá tinha passeado.
Mas Amélia aprendeu ao mesmo tempo que se desfazia o anjo, que podia lá voltar sempre que quisesse e que se ainda não o tinha feito anteriormente, era por julgar que só um anjo lhe poderia ensinar o caminho, quando afinal tinha por lá andado a passear sozinha, simplesmente acompanhada de um mortal
Hoje quando ouve falar em anjos, sorri trocista e diz que anjos não existem, e que se os houver, por não terem sexo, para nada servem.

21 comentários:

Horácio Salgado disse...

Minha querida claridade matinal, desculpe-me. Lá está o que pediste, ainda que a leitura não seja recomendada por mim, como tudo bem sabes. Não me leias; há coisas menos piores para fazeres contigo, e mais masoquistas.

Uma coincidência: também escrevi sobre anjos e sonho. Bem... desculpe-me...

claras manhãs disse...

Olá Horácio

Bons olhos te vejam!
A missa destraiu-te muito!
Então já temos em comum os anjos e os sonhos

Beijinho

Horácio Salgado disse...

(escrevendo fora do heterônimo: "zanzar" é sinônimo de "vaguear" no Brasil)

inespimentel disse...

As tais sintinias... acabei de comentar por aí a ideia de que não são os principes que nos fazem felizes somos nós que aprendemos a sê-lo, as demasiada sexpectativas nesse cavaleiro andante acabam por pôr a fasquia lá em cima e lá em cima só nós nos podemos elevar, senão é com cada QUEDA QUE OLHA LÁ!

inespimentel disse...

... ai... sintonias!

Carla disse...

a verdade é que quase sempre o começo da felicidade está em nós...quase nunca temos é capacidade para levar isso por diante, ou pelo menos de arriscar...precisamos sempre de alguém´
beijos e bom fim de semana

claras manhãs disse...

Eu percebi o significado, mas gosto da palavra, enrola-se, enche a boca
decididamente vou começar a usar

Beijinho, Horácio

claras manhãs disse...

Olá Inês


Ah! pois são! são quedas de alto lá com elas.
Vai-se aprendendo com a idade...


Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Carla


Minha querida, deixa lá que daqui a uns anitos, não muitos, já terás aprendido que "alguém" só poderá trazer um pouco mais de felicidade e quando for à vida, não ficamos desesperadas, só mais contemplativas.


beijinho

Manga dalpaka disse...

Tecnicamente, os anjos são pessoas mortas. Não são?

cris disse...

Doce Toque de Asas

Chamo-te anjo
enquanto me sento
à sombra dos montes.
Fico, na paz,
na solidão vespertina deste lugar em que habito,
feito abrigo onde pousamos tanta conversa boa.

Chamo-te anjo,
nesta lânguida placidez,
aguardando esse doce roçar de asas,
enquanto descanso sobre os minutos,
imaginando-me já nos teu regaço materno,
tendo por pano de fundo,
um sol que já se vai despedindo…

Chamo-te anjo,
como quando me acenavas
sob agasalhos,
e ias, envolta num até já.
Limpava então o alpendre,
decorando-o,
dispondo boas-vindas pelo chão,
sempre acompanhado pela espera boa...
teu chegar alado.

Chamo-te anjo,
como quando eras tu que te sentavas,
no degrau do alpendre,
e eu chegava,
com ramos de anoiteceres que pousava,
dourando o telheiro com boas noites.

Chamo-te anjo,
já te antevendo,
vestida de calma branda,
caminhando pelo carreiro,
seguindo o trilho dos pensamentos serenos,
que fomos deixando cair,
nos tantos passeios que demos,
matutinos.

Neste lugar onde me sentei,
vou-me despojando de tudo,
menos da flor do jardim,
a certeza,
de seres tu, chegando...
E vou seguindo o teu voo,
sentada no mesmo degrau,
(onde tantas vezes te sentas, dormitando)
aquecida pelas boas vindas que espalhei...

Ah, meu anjo,
que és já chegada!
Trazes na mão um presente,
embrulhado com a melodia dum sorriso,
com que vais adornar minha face,
iluminando ainda mais a tua:
o teu afago.
E já não precisarei chamar-te.



Porque acredito que há anjos. Quando peço ajuda e tu vens, és Anjo.
Quando te envio um beijo, por me apetecer um afago, és Anjo.
Existem, sim.
Tu existes, e, quantas as vezes que corro para ti? É amizade, é vontade dum abraço, é sentir-me bem e saber que é recíproco.
Gosto muito desta certeza, desse teu doce toque de asas.

Beijo, Meu Anjo
(sorriso terno, Minucha)

Cris
Aproveito para te desejar um belo dum fim de semana com sol, calma, e todos os teus Anjos de que tão bem cuidas :-)

claras manhãs disse...

Olá Manga

Pois são, minha querida!
sorriso divertido
Mas há uns que ás vezes por nos socorrerem, em qualquer sentido da palavra socorro, nos parecem bem vivos.

Beijinho

claras manhãs disse...

Oh Cris!

já estou aqui de lágrima ao canto do olho.
Minha querida, nesse teu conceito , tão terno, tu tambéns o tens sido, e de que maneira!

Beijinho , lindinha, grande e doce como só tu

Mateso disse...

Amélia Maria poderia ser seu nome. Metaforicamente falando Amélia vogou pelo Universo, provou-o, degustou-o, bebeu-o. Saciou-se.Com anjo.Amélia na terra sozinha, irónica, vazia, mas
de estrada aberta. Livre e dona de si. Amélia .A lição de um voo.
Parabéns.
Bj.

Anónimo disse...

Adorei
gostava que fosse a
arte-e-ponto.blogspot.com

claras manhãs disse...

Olá Mateso


Obrigado

Mas olha que esta não é a tua Maria.
A Maria vou editá-la na segunda-feira
e com uma organização de história parecida com a tua.
Aliás deixarei link ao teu blog, explicando como surgiu a história.


beijinho

claras manhãs disse...

Olá Anónimo

irei com certeza, já


beijinhos

Fatyly disse...

Desde cedo devemos aprender a estarmos bem connosco próprios e só assim podemos discernir o que poderá vir por acréscimo.
Não há anjos? e por não terem sexo para nada servem? ora que conclusão tão drástica menina Amélia:)
claro que há, mas de carne e osso, com sexo sim senhora e se olhares há tua volta verás imensos. Ao longo da tua vida quantas vezes "aflita", vindo do nada alguém te estendeu a mão?
Agora os anjos "montados num cavalo branco e de rosa na mão" podem surgir mas prefiro esperar do que ir em busca de...

Oh Claras Manhãs podes não acreditar mas também tu foste um anjo para mim, no momento exacto fomos tomar um café e até almoçar e que guardo na caixinha das emoções.

Um beijo sorridente mas sempre num acreditar absoluto que todos temos altos e baixos.

Um bom sábado ou melhor como diz a minha neta mais nova um bom sabáááááádddôôô :):):) ;)

TINTA PERMANENTE disse...

A Amélia da canção também é triste; lembro-me, de outra, mais antiga, que cedo a Vida lhe vidrou os olhos. Até aquele velho bote, do ti'Artur da Vilariça, pescador sabido lá da doca, coitado, o mar o levou no golpe escondido da pedra na maré...
A Vida, realmente, pode ser sofrida. Mas a Esperança, essa, é violenta!...

abraços!

claras manhãs disse...

Oh Fatyly!


Parece que escrevi isto, para tu e a Cris virem dizer que sou um anjo...
Também há anjos maus...
Fico comovida pela tua confiança, minha querida.

beijinho grande, muito grande mesmo.

claras manhãs disse...

Viva Tinta Permanente


Tão bom vê-lo neste espaço!
A Esperança tem sido sempre violenta, felizmente.
Tenho tido imensa sorte.

Beijinho terno