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27 de outubro de 2008

BAILARINA



Isadora Duncan




7º JOGO DAS 12 PALAVRAS DO EREMITÉRIO



Estava-se em quarto crescente e nesse crepúsculo a lua, um delgado e fino sorriso de uma boca feliz, descia direita ao mar. Quanto mais próximo estava de o tocar, mais alaranjada ia ficando, até por fim parecer que o tinha tocado, ou seria o mar que apaixonado subia para a agarrar.
Ela estava sentada na areia, os braços rodeando os joelhos, já o crepúsculo ficara para trás, enquanto admirava o pôr-da-lua. Foi ficando. O encanto no coração, em SINTONIA com a noite, deixou a ESCURIDÃO escorrer por ela isolando-a nas suas memórias.

Trabalhava oito horas por dia agarrada à barra, forçando a mente para conseguir dominar o corpo, num ESFORÇO continuadamente suado, exigindo-lhe o desenho correcto do gesto no espaço, a sensação de leveza dada pela tensão de todo o corpo que vibra, para partilhar com quem a via aquela sensação de facilidade que só dá quem chega à perfeição.
Estava no centro do palco, treinando, treinando, insatisfeita consigo por nesse dia não conseguir obrigar a mente a concentrar-se, prejudicando assim o seu trabalho quando o bailado estreava dali a 15 dias e ainda tinha tanto a exigir ao seu corpo, para conseguir fazer com a arte habitual o seu papel de primeira BAILARINA.
Tão depressa ali estava, como o seu pensamento voava em perfeita LIBERDADE para aquele pedido que a fazia sonhar. Repreendia-se de imediato, mas dali a um pouco lá estava ela embrenhada no abraço, daquele outro corpo que admirava a HARMONIA do seu.
Com o primeiro GALANTEIO que lhe fizera, na corrida dos agradecimentos, voltara a cabeça para saber a quem pertencia essa voz que a arrepiara. O primeiro beijo fora dado há uns meses atrás. Era forte o SENTIMENTO que os unia. Agora aquele pedido!
Tinha de se concentrar, tinha de se concentrar no movimento de todo o corpo entre o acabar da pirueta e o salto que ia dar para os braços do seu par. Era difícil esse salto, teria de contrariar o movimento em plena pirueta e aproveitar a energia dela para se lançar no salto, que ainda lhe não saíra perfeito. O seu par resmungava, por já tantas vezes terem ensaiado sem resultado aparente.
O ESFORÇO enorme que fez valeu a pena, como sempre e a estreia foi um sucesso. O bailado ia ficar em palco durante oito dias e tinham combinado casar-se logo de seguida, por ela partir em tournée.
Acesas as luzes, para os agradecimentos, só reparava na LUZ daqueles olhos que não se despregavam dela.
Ao acordar nessa manhã em casa dele, na véspera do casamento, espreguiçou-se feliz pensando no dia seguinte. Ele abraçou-a com amor e avisou-a de que tinham de ter uma conversa séria, já que no dia seguinte casavam.
FALAZ conversa! Ou seria o pedido de casamento que tinha sido falacioso? Sentia-se traída.
As alternativas que lhe dava, três, não poderiam nunca estar em questão. Era a sua profissão!
Ou deixava de dançar, ou trocava de par, ou deixava de dançar bailados românticos, dizia, acrescentando que não a conseguia ver entre os braços de outro homem, principalmente os do seu par de sempre.
Parva que tinha sido! Sempre o soubera ciumento e achava-lhe graça….Mas a sua profissão?
Então, sem lhe responder, com um desgosto imenso, coração desfeito, olhos marejados de lágrimas, dera-se a sua própria CAPITULAÇÃO. Vestiu-se e foi-se embora, fechando a porta de mansinho.
Ah! A vida trocara-lhe as voltas. Sorria quando assim pensava, porque bem sabia que tinha sido a falta de concentração a trocar-lhe as voltas e não a vida.
Em plena tournée e em pleno desgosto, desconcentrara-se num salto e fizera uma má recepção ao solo, partindo o tornozelo. Valera ter sido num ensaio. Sabia que seriam meses, e que nunca mais poderia dançar, ou pelo menos ter como profissão ser bailarina.
Chorara de dor, chorara de revolta por não poder continuar a dançar, chorara por ter ficado sem nada
A lua tinha desaparecido há umas duas horas e ela ali estava sentada na areia, o tornozelo ainda a dar sinais, um ano já passado, a reviver esses dois momentos dolorosos da sua vida, mas as lágrimas tinham já ficado para trás e sabia o que ia fazer num futuro próximo.

6 comentários:

inespimentel disse...

Bonito.
Ser "primeira bailarina" é como ter um amante intenso, possessivo, exclusivo, penso que a entrega não será profissional... está para lá disso... talvez seja, de facto, um caso de amor, um casamento para a vida... a não ser que um desenlace infeliz dê a volta ao destino, como neste post!

xistosa - (josé torres) disse...

A vida é uma traição.
Foi traída por um sonho real e carnal.
Depois pelo sonho que alimentou toda uma vida, que deveria ser ainda curta.
Depois das traições, podemos assentar ou como no caso dela, sentar na areia.
Por sorte já lhe tinha secado as lágrimas.
Por sorte não esmoreceu e sabia qual o caminho.
Quando temos força, não temos quebras, só pequenas paragens ...
Que o futuro se aproxime!

claras manhãs disse...

As mulheres, como tu sabes,Xistosa, costumam ter muita força.
Esta também tinha

beijinho

Fatyly disse...

A vida por vezes troca-nos as voltas, tolda-nos os sonhos dando lugar a frustacções, mas nada mais gratificante enfrentar o dificil: dar a volta à vida, ou melhor aos obstáculos da vida.

Gostei imenso!

Beijocas

claras manhãs disse...

Olá Inês

é verdade Inês, são horas e horas diárias de trabalho, que quase não dão tempo para mais nada.
É um trabalho excepcionalmente exigente.

Beijinhos

claras manhãs disse...

Olá Fatyly

Sabes, gostei da maneira como resolvi a história, o que não gostei, sinceramente, foi da falta de imaginação do tema, propriamente dito: a vida de uma bailarina

Mas tenho fases ao nível da imaginação, e este não foi dos melhores dias.
Mas enviei outro, que edito amanhã, e desse gostei do tema escolhido e da maneira de o resolver.
São dias!

beijinho