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12 de dezembro de 2008

ROXANNE


MIRCEA BEZERGHEANU



Maria do Rosário na Élite aprendeu a ser uma mulher sofisticada. Já era uma rapariga elegante e sabia vestir para as ocasiões, mas tinha aprendido a maquilhar-se, a pentear-se, todos aqueles pequenos pormenores que transformam uma mulher elegante em sofisticada, sempre que era necessário. Aprendeu a domar a cabeleira, mas sempre que não estava a trabalhar voltava a ser apenas uma rapariga elegante, com ar exótico e meio selvagem, cuja sensualidade aumentava conforme os meses iam passando.
Tivera de se aplicar quando saíra da Élite para conseguir passar o primeiro ano, não com notas brilhantes, mas que apesar de tudo não a envergonhavam.
Foi passar as férias a Florença a casa da mãe, que vivia perto de toda a família. Foram umas férias inesquecíveis, apesar da mãe se não recompor do desgosto da morte do marido. Sempre fora frágil, mas tinha ficado tão debilitada….pensara que a mãe se recomporia mais depressa junto da família, mas isso não acontecera e pressionava-a para ir ao médico, poderia tomar uns fortificantes…a mãe dizia que era natural o seu estado devido ao desgosto que a não largava. Fora isso, até se sentia muito bem.
Foi preocupada que voltou para Paris, para continuar o curso.
Tinha um novo problema, teria de arranjar trabalho rapidamente se queria continuar a viver com aquelas duas estouvanadas, divertidíssimas. Naquela casa reinava a alegria junto com uma organização de espaço, pouco frequente em pessoas daquela idade. Respeitavam as necessidades de estudo e a individualidade de cada uma, davam-se muito bem. Lisa e Pilar, trabalhavam pouco e tinham bastante dinheiro, ela reparava, mas como não era nada com ela, nunca lhes fez perguntas.
Arranjara um outro restaurante, onde continuava a servir às mesas. Era pena pagarem tão pouco, porque gostava do que estava a fazer, apesar de ser cansativo, não a obrigava a pensar só a memorizar, o que era um bom exercício.
Não dava para pagar a sua parte da renda da casa.
Nessa noite Lisa e Pilar resolveram falar com ela e perguntar-lhe se não se queria juntar a elas, no trabalho que faziam.
- não sei o que fazem, nunca me contaram nada.
- trabalhamos na agência de Madame Jeanne
- deixei a Élite por não conseguir estudar, não volto mais a ser modelo
- mas não é uma agência de modelos, é uma agência de “escórte” (acompanhantes)
- são loucas? estão a propor-me a prostituição como solução? vocês quê? são prostitutas? mas…
Maria do Rosário, parou a olhar para as duas amigas, apalermada, sem saber o que pensar.
- prostitutas? louca és tu só de pensar isso de nós, respondeu Lisa, furiosa. Mas o que é que tu pensas de nós?
- fui eu que percebi mal? Não falaste de “escórte”?
- falei, mas não é prostituição, pelo menos na agência de Madame Jeanne. Ai de alguma de nós que tenha relações sexuais com algum cliente! Vamos imediatamente para a rua.
- explica lá então o que fazem, disse Maria do Rosário, tentando acalmar o ambiente.
- ouve bem, continuou Pilar, ouve bem, porque não te admito que penses isso de mim. Acompanhamos clientes, tanto em almoços, jantares como em reuniões de trabalho. Nunca estamos sozinhas com eles, a não ser no trajecto da agência para os locais previamente combinados entre o cliente e Madame Jeanne. Também há quem vá a reuniões de trabalho em lugares longínquos ou seminários que tenha de estar dois ou três dias. Mas a nós mais novas, Madame Jeanne, não deixa fazer esse tipo de trabalho. E não penses que é pêra doce, porque também tens de estudar os assuntos que se irão tratar nessas reuniões e jantares de negócios. Para todas essas explicações o melhor é falares com Madame Jeanne, aliás nem sabemos se ela te aceita, porque te irá examinar a tua cultura geral, e se a não tiveres não és aceite, pura e simplesmente.
- está bem, respondeu Maria do Rosário pensativa. Marquem-me lá uma entrevista com essa senhora, depois logo se verá se ela me aceita e se eu aceito o trabalho.




14 comentários:

Mariz disse...

Essa Roxanne é de fibra!
Abraços nossos
Mariz

Bartolomeu disse...

É curioso o facto de poucas pessoas conseguirem dissociar prostituição de acompanhamento.
Não possuo muitos conhecimentos deste assunto, aliás, tudo quanto sei, baseia-se na voz corrente, naquilo que se ouve comentar acerca do assunto. Conheço 2 empresários que, no tempo das "vacas gordas" recorriam a este serviço, sempre que tinham almoços ou reuniões de negócios. Era moda e era quase garantia de sucesso se se fizessem acompanhar de uma mulher elegante, sufisticada, que soubesse estar e falar na altura adequada, dizendo aquilo que se adequasse à situação.
Contudo, aqueles dois exemplos que citei, tinham sempre histórias mirabolantes de carácter sexual, passadas com as tais acompanhantes. Coisa de macho provávelmente, que ainda meio sob o efeito anestesiante da presença das escórt, se mostravam incapazes de separar a realidade das fantasias que lhes povoavam o espírito.
Contudo, devo assinalar que nutro um carinho especial por prostitutas. Considero-as os seres mais pacientes e compreensivos que existem ao cimo da terra. Isto porque, se ponderarmos as características da profissão que desempenham, fácilmente compreendemos que é necessário possuir uma estructura mental fortíssima, para conseguir manter relações tão íntimas quanto o oferecer o corpo, satisfazendo desejos por vezes aberrantes, a pessoas que, a troco de algum dinheiro, possuem características de personalidade tão diferentes.
Já conheci variadíssimas mulheres "da vida". Algumas perfeitas psicólogas, algumas verdadeiras profissionais, algumas verdadeiras ilusionístas, algumas verdadeiras fadas, mas, até àquelas que menos escrupulosas, menos éticas, menos sérias, em suma, rendo a minha sincera homenagem.

claras manhãs disse...

Olá Mariz

se a conseguir fazer correctamente, será sim.

beijinho, Mariz

claras manhãs disse...

Olá Bartolomeu

Situei a acção em 1971, ano da inauguração da agência de modelos Élite.
Não tenho nenhum preconceito, mas nenhum mesmo e a nenhum nível, sobre a prostituição.
A maior parte das pessoas que aqui passam que já me conheciam do outro blog sabem disso, visto que escrevi um post para um outro blog que me convidou e que fui eu que defendi o que lá estava escrito, comentário a comentário.
Foi dos bons momentos que tive na blogosfera.
Há dez ou doze anos vi um programa francês sobre uma agência de escórt, e o que escrevi era assim tal e qual.
Nessa agência, o cliente não era autorizado a escolher a acompanhante, dizia à dona da agência o que precisava, em termos de negócios e de conversa e era a Senhora que escolhia a acompanhante que achava adequada.
Esse é o ponto de vista que quero desenvolver.
Em França, ainda hoje há agências, as mais elitistas, que o não permitem. Não quer dizer que não se faça às escondidas.
Em Portugal não sei como é, mas pareceu-me no outro dia, que tudo era permitido.
Também conheço várias prostitutas, e tenho sobre elas a mesma posição que tu tens.

beijinho

Desnuda disse...

Um belo texto, sem dúvida! E bem definido em relação a temática.

Também como Bartolomeu, enfatizo minha admiração por mulheres que a sociedade teima em defini-las como mulheres de "vida fácil". Fácil? Pois conheço(virtualmente) uma pesssoa inteligente, talentosa e de excelente índole que acabou de sair da prostituição. E já chorei ao ouvi-la contar algumas histórias pessoais. Choramos. E rimos. Experiências que poderiam deixar sequelas sérias e fazer dela uma pessoa má, revoltada ou sem escrupulos...E não é. Uma pessoa absolutamente verdadeira, digna e com um ótimo carater. De início me disse o que fora e perguntou-me: ainda assim, aceita-me como amiga? E não precisava ter contado algo íntimo. Nada lhe perguntei e nem precisava ter dito.... Mas o receio de não ser aceita e/ou julgada, fê-la dizer-me como se esperasse um julgamento, dando a cara a tapa...


Não conheci teu outro blog!?



Beijos!

Carla disse...

gostei muito de ler esta continuação
beijos e bom fds

Paulo - Intemporal disse...

Gostei particularmente deste post que retrata que a liberdade é sempre uma conquista, nunca uma dádiva.

Uma homenagem que aqui presto também.

Deixo um beijo sincero e o desejo de um bom fim de semana.

claras manhãs disse...

Olá Desnuda


não sei se o conheceste, minha querida, mas foi uma época em que tive 4 blogs ao mesmo tempo.
Não te digo aqui o nome dele, mas direi noutro sítio.
Pensamos da mesma maneira então, sobre a prostituição.

beijinho, desnuda

claras manhãs disse...

Olá Carla

sorriso

Bom fim de semana, querida

Beijinho

claras manhãs disse...

Olá Paulo


Obrigado pela tua simpatia
Bom fim de semana, para ti também


beijinho

Fatyly disse...

Sempre achei que a prostituição deveria ser legalizada para que possam ter direitos e deveres.

Acompanhantes, uma forma de prostituição mais luxuosa, abrigada, individual e que por vezes não implica sexo.

Sinceramente o que nunca percebi e nem sequer aceito é o famoso e gasto bilhete postal ou convite de "Acompanhamos clientes, tanto em almoços, jantares como em reuniões de trabalho. Nunca estamos sozinhas com eles, a não ser no trajecto da agência para os locais previamente combinados entre o cliente e....".
A mulher serve para tudo desde os calendários mais farruncos até aos eventos desportivos a entregarem flores ou a agarrarem o chapéu de chuva ou sol como se de adorno se tratasse. Enfim!

Gostei desta continuação!

Uma beijoca

claras manhãs disse...

Olá Fatyly

As mulheres, teoricamente, são aquilo que elas quiserem ser.
Digo teoricamente, porque have´ra sempre excepções.
Para mim, ser prostituta, ser acompanhante, ser modelo, ser engenheira, são tudo profissões.
Por isso não fazer, nesta história da Roxanne, nenhum tipo de de julgamento de valores.
O pouco que fiz, foi à luz da acção ser passada em 1971 e nessa altura a ideia de prostituição, pelo menos na cabeça dos portugueses, ser uma coisa moralmente condenável.
Ainda hoje o é, em tantas cabeças.
Na minha não e muito menos ser acompanhante.

beijinhos

Fatyly disse...

Para mim nunca foi e não é "moralmente condenável" e acho que é uma profissão como outra qualquer.

O que me refiro é a forma como as próprias mulheres descrevem essa profissão - não me refiro ao teu texto e que comentas, direcionado à mentalidade de 1971 - mas embora a sociedade de hoje seja mais aberta, notas grandes diferenças em termos de "respeito" por essa conotação de vida fácil?

Depois é a própria mulher que aceita o "ser estampada" em tudo e até numa exposição de automóveis qual o papel daquelas moças dengosas ao lado, em cima dos carros? Para chamariz de compra de automóveis?

Quantas "Madames Jeanne" não haverão por aí?

As pessoas e neste caso as mulheres "em qualquer profissão" deveriam ser valorizadas pelo que fazem, pelo que sabem e jamais em termpo algum pelo corpo ou cara laroca.

Com isto não quero condenar, mas num mundo machista e empregador é um mal que ainda vai prevalecendo.

Mas tenho o maior respeito pelas protitutas e elas deveriam aprender/defender de uma vez por todas que deveriam respeitar-se a elas próprias e exigir esse respeito porque quem faz delas um "objecto".
Não sei se me fiz compreender.

Uma beijoca

claras manhãs disse...

Fizeste-te compreender completamente, Fatyly.
Como eu não defendo, também, a carinha laroca, depois verás o seguimento.

beijinho e obrigado pelos teus comentários