Helene Knoop
Era pequenina ainda, tão pequenina, a Amélia quando começou a pensar no futuro, quando começou a desejar ser um dia mais tarde feliz.
Não teria mais de oito anos, quando no meio do caos em que vivia teve um sonho, Amélia nunca conseguiu dizer se estava acordada ou a dormir, tão bem delineado lhe apareceu que julgou ser verdadeiro.
Sonhou que um dia haveria de ser tão amada, mas tão amada, que ele se transformaria num anjo e a levaria nas suas costas a passear pelo Universo mostrando-lhe a Lua, Neptuno ou Marte, e que a levaria aos saltos pela Via Láctea.
Depois desse sonho, Amélia tornou-se indiferente a tudo o que lhe faziam, podia cair o Carmo e a Trindade, que ela nem queria saber, estando sempre escondida dentro do sonho.
Foi crescendo e o caos á sua volta cada vez era maior, mas continuava escondida, ausente de tudo e de todos, esperando a maioridade, que pensava ela lhe traria o sonho ou o anjo.
Um dia caiu-lhe, quem ela julgava ser um anjo, no meio da sopa, quando o João lhe apresentou num restaurante um amigo e ela riu pela primeira vez desde há muitos anos e foi brilhante, sedutora, rindo-se ele com ela.
Amélia resolveu ir viver com o anjo, acabando por descobrir que de anjo nada tinha, que o amor era pouco e a felicidade não existia...
Vagueou pela vida procurando o sonho, não acreditando que não existisse, por não ser possível ter-lhe aparecido tão nova e tão definido, para chegar à conclusão de ser uma simples e dramática ilusão.
Estaria nos quarenta e muitos, já esquecida do anjo, fabricando a sua felicidade diariamente, cínica quanto a homens, anjos ou sonhos, tendo aprendido à sua custa que mais vale admirar a Lua e as Estrelas cá de longe, do que acreditar que algum dia poderia lá chegar perto.
Amélia foi a um casamento de uma amiga, já o terceiro era certo, mas mesmo assim romântico nas juras eternas, e ficou numa mesa onde não conhecia ninguém, a maior parte das amigas divididas entre os diversos casamentos que tinham acontecido naquele dia
A conversa estendeu-se, ela tão distante conversando sobre tudo e nada, apenas reparando num dos homens, que era mais alegre do que habitualmente são as pessoas nestas idades, como se a vida lhe tivesse sido fácil, leve e que era envolvente. Achou graça, nada mais.
Uns dois ou três meses depois, Amélia voltou a encontrar o desconhecido alegre e leve, num workshop. Uma semana inteira de intenso trabalho, mas que à hora de almoço se transformava em gargalhadas e havia Sol, mesmo quando a chuva era intensa.
Passaram a encontrar-se quando lhes era possível e o desejo foi-se instalando, resolvendo os dois que o melhor era colmatá-lo, ficando sempre a permanente sensação de fome
Por isso, para estarem mais perto, foram viver juntos, pensando ela que tinha encontrado o seu anjo, que há tanto tempo tinha esquecido, mas que a levou nas suas costas, voando, a passear pela Via Láctea, foram espreitar Neptuno e Marte, tendo ela pela primeira vez passeado pelo o Universo, deixando para o fim a Lua.
Lá sentados, ele disse-lhe que se tinha apaixonado por outra.
O seu anjo em mil pedaços ficou desfeito, mas sempre se lembrava que pelo menos tinha descoberto o Universo e que por lá tinha passeado.
Mas Amélia aprendeu ao mesmo tempo que se desfazia o anjo, que podia lá voltar sempre que quisesse e que se ainda não o tinha feito anteriormente, era por julgar que só um anjo lhe poderia ensinar o caminho, quando afinal tinha por lá andado a passear sozinha, simplesmente acompanhada de um mortal
Hoje quando ouve falar em anjos, sorri trocista e diz que anjos não existem, e que se os houver, por não terem sexo, para nada servem.